» Terceiro Ciclo - Capítulo III - União

– A mãe a abandonou quando ainda era uma criança. O pai era um bêbado miserável que mal conseguia manter-se em pé. – Bartholomew passara longos minutos narrando o passado de sua protegida, Dahlia. – É uma garota marcada pela solidão e sofrimento, compreendo que tenha passado por alguns conflitos consigo mesma, mas uma traição é imperdoável.

Pensativo, com ar ausente, Christian Madden mantinha as mãos nos bolsos do sobretudo e um olhar vago em seu rosto firme. Sem dar-se ao trabalho de se virar para encarar o homem, Madden disse:

– Braxton uma vez chamou-a de meretriz. Dahlia pareceu-me terrivelmente ofendida, como se a acusação fosse algo… Pessoal.

Estavam os dois sentados em um dos bancos de madeira da catedral, o vazio tornava a conversa ainda mais tensa, perturbadora.

– A vida às vezes age de maneira demasiadamente cruel. Foram estas crueldades que fizeram com que Dahlia entrasse para… Para o mundo no qual viveu antes de unir-se à Ordem. – o homem esperou que o mais novo se manifestasse, mas ele não o fez. Portanto, Bartholomew encarou-o e prosseguiu, dando-lhe a conclusão de todo o esclarecimento: – Antes de tornar-se uma de nós… Dahlia era uma prostituta, Christian.

Finalmente o exorcista virou o rosto para fitar o líder da Ordem da Santíssima Trindade. Com os olhos demonstrando tremendo espanto, Christian Madden julgou tê-lo ouvido mal.

– Como disse? – indagou.

– Era uma meretriz, uma pecadora. – repetiu o mais velho. – Felizmente arrependeu-se e purificou-se de seus atos pecaminosos. Agradeço a Deus todos os dias por tê-la trazido até nós.

Madden esboçou um sorriso irônico pelo canto dos lábios.

– Será que continuará agradecendo se confirmar que, de fato, ela está traindo vocês?

Bartholomew suspirou, abaixando seu olhar.

– Eu… Eu não sei, filho. É por isso que vim até você. Talvez saiba como arrancar dela a verdade, caso ela esteja mesmo trabalhando como uma espiã em nosso meio.

– E o que eu poderia fazer? – Christian perguntou, curioso.

– Dahlia tem afeição por você. Tenho notado isso desde o dia em que você veio até nós. Talvez consiga descobrir quais são os planos dela.

– Sou uma pessoa muito direta, Bartholomew. – assegurou o caçador de demônios. – Nada de rodeios. Se quer que eu descubra o que Dahlia esconde, perguntarei a ela diretamente.

– E se ela…

– Mentir? – Madden interrompeu-o. – Então ela já estaria se condenando, não? Seria instantaneamente expulsa de seu grupo. No entanto… – ele emitiu uma breve pausa. – Eu precisaria ter certeza de que ela está mentindo ou dizendo-me a verdade.

– Parece-me que já tem algo em mente. – observou Bartholomew.

– De fato. Darei a ela esta oportunidade de ser honesta. Eu a perguntarei o que tenciona, quais são seus planos. Sei como confirmar suas respostas.

– Como?

– Eu a seguirei para onde quer que ela vá.

– Caso descubra algo, por favor, seja rápido em me informar.

– Assim eu o farei, lhe garanto.

– Peço a Deus para que minhas suspeitas sejam apenas frutos de minha imaginação.

O velho demonstrou total nervosismo e preocupação. Madden, por sua vez, transmitia plena curiosidade, interessado em saber a verdade quase tanto quanto o próprio homem.

– Ainda não me disse para quem acredita que Dahlia esteja trabalhando.

Bartholomew respirou fundo e tornou a olhá-lo nos olhos.

– Aaric Hunter. – respondeu-lhe. – Os Ceifeiros do Equilíbrio.

Surpreso, o exorcista piscou rapidamente duas vezes seguidas.

– Por que diabos ela…?

– Dahlia ainda demonstra-se ambiciosa. – Bartholomew revelou, nada hesitante. – Acredito que esteja atrás de poder.

– E isto quer dizer o que?

Antes de responder, o homem tornou a respirar fundo, uma atitude que entregou todos os pontos: estava mais nervoso do que nunca. Encarou Madden mais uma vez antes de dar-lhe a resposta final:

– Isto quer dizer que, possivelmente, Dahlia tenciona tomar para si os sete anos de reinado sobre a Terra e todo aquele que nela habita.

–—

Em passos hesitantes, Eleonora adentrou o local forçando-se a se demonstrar superior e firme, o rosto erguido em um gesto desdenhoso. Deixara dois de seus irmãos da Fraternidade do lado de fora, insistindo para que eles não a interrompessem enquanto encontrava-se com a pessoa que a aguardava.

O local lembrava a sede de sua própria organização, a divisão que agora ela própria comandava. Atravessando um corredor estreito, ela descobriu-se no que mais parecia ser o galpão principal de toda a construção. À sua frente, Declan mantinha-se sério. Esboçou um sorriso apático assim que seus olhos encontraram-se com os da irmã mais nova, e então, ele pôs-se a caminhar na direção dela.

– Que bom que veio. – disse-lhe. Tomou-lhe as mãos entre as suas e fitou-a com uma emoção nunca vista antes naquele rosto.

Esquivando-se dele, Ellie encarou-o, confusa.

– Como chegou até aqui? Como soube da Fraternidade?

Declan exalou um suspiro baixo, quase inaudível.

– O correto seria dizer que eles me encontraram, trouxeram-me até aqui.

– O quanto você sabe?

Ele fixou os olhos nos dela.

– Tudo, Ellie. Sei de tudo. – confessou. – Sobre as teorias para um novo governante, sobre o caos que se aproxima, a guerra entre as divisões, entre… Esses grupos de malucos que atentam contra nós. – outro suspiro. – E sei sobre como nosso pai foi assassinado.

A última sentença fez com que Ellie caísse em si, deixando-se levar pelas emoções que vinha tentando prender dentro de si mesma há vários dias. Lançou-se para Declan, destroçada pelos prantos. As lágrimas vieram como uma enxurrada, os soluços formando um nó em sua garganta.

Sem qualquer sinal de comoção, porém, Declan fechou os braços ao redor dela, acolhendo-a em uma tentativa de demonstração de afeto e ternura.

Foi quando Ellie entregou-se totalmente às emoções, deixando que as marés de angústia e tristeza se quebrassem dentro dela. Há muito tempo não tivera qualquer contato assim. Principalmente pelo fato de toda a sua família não estar mais presente. A morte da mãe, seguida do assassinato do pai deixaram um vazio gigantesco no coração que esfriava-se cada vez mais com o passar dos dias.

O contato entre eles fora longo, longo o bastante para Ellie estranhar a súbita atitude gentil do irmão para com ela. Lentamente, Declan afastou-a de seus braços enquanto ela lutava para fazer suas lágrimas cessarem.

– Tudo ficará bem agora. – afirmou ele. – Estamos juntos. E é assim que ficaremos, prometo.

– P-por que…? – Ellie ergueu os olhos marejados para ele. – Por que está tão mudado?

– Porque abri meus olhos, porque não tenho mais ninguém além de você. E confesso que… Tenho medo da solidão.

Enxugando suas últimas lágrimas, recompondo-se, Ellie estabilizou seu emocional ao focar-se no verdadeiro motivo pelo qual fora até ele.

– Eu vim lhe propor um acordo de paz.

– Sei disso. – Declan falou. – É o que também almejo. Que estejamos juntos para derrotar nossos os nossos inimigos em comum.

– Acredito que esteja se referindo à Igreja.

– Não apenas a Igreja, Ellie. Também refiro-me à Aaric Hunter. Estou certo de que já teve o desprazer de conhecê-lo.

Eleonora arqueou as sobrancelhas, surpresa por todo o conhecimento que o irmão tinha acerca da Fraternidade e seus inimigos.

– Hunter atacou-me com seus homens. Consegui livrar-me dele. Temporariamente, digo.

– O homem acredita ser o escolhido para governar…

– Por sete anos. – a irmã completou. – Assim como muitas outras pessoas envolvidas neste meio. Assim como… Como você e eu, Declan.

– Sim, exatamente. Mas não entraremos em guerra por isto. Muito pelo contrário.

Ellie estreitou os olhos, fitando-o como se tencionasse desvendar seus pensamentos.

– O que quer dizer?

– Quero que se junte a mim, que nós dois, juntos, possamos governar como uma só pessoa. – propôs com seu tom de voz entusiasmado. – Como Knightingale e Walford.

Instintivamente, Ellie virou-se de costas para ele, recuando seu olhar.

– Acredita no que lhe dizem a respeito do passado?

– Você acredita? – Declan devolveu a pergunta. – Acredita que é quem eles dizem que você é?

Dias atrás, Ellie teria negado sem precisar pensar mais de duas vezes. Agora, no entanto, era difícil negar o que presenciara, o que sentira desde o dia em que executara Vincent Hurst. A entidade que apoderara-se de seu corpo era extremamente forte. Forte demais para ser detida por seu autocontrole. Contudo, ela apenas manifestava-se quando sentia necessidade disto. Diferente do que Dominic Ryder lhe dissera uma vez, nem tudo podia ser controlado. Não quando o que entrava em questão era Elizabeth Knightingale. Definitivamente.

– Não se pode negar o destino, Ellie. – a voz de Declan a tirou de seus pensamentos. – Por mais absurdo que pareça, por mais inacreditável que seja. Esta aí, dentro de você. Tal como está dentro de mim.

Ela não respondeu, permanecendo imóvel, pensativa, calada. Declan aproximou-se, tornando a lhe falar. O timbre de voz era baixo e persuasivo.

– Esqueçamos nossas desavenças, tudo ficou para trás. Esta é uma nova vida, algo maior nos aguarda. – deu mais dois passos adiante, dando fim à pequena distância entre eles. – Quero que nós dois tenhamos parte nesta profecia, Ellie. – tocou-lhe nos ombros, descendo as mãos sobre a pele lívida e macia. – Se nos unirmos, ninguém será páreo para nós, nenhum inimigo permanecerá em pé.

– Eu vim até aqui hoje para sugerir uma trégua. – a voz escapou vacilante dos lábios dela, sentia-se terrivelmente tensa, negando-se a se virar para encará-lo. – Para sugerir que a Segunda Divisão junte-se à minha organização, a Sétima Divisão.

– Pois é exatamente isto o que estou te propondo. Uma união. Não apenas entre as nossas duas organizações, mas também entre nós dois.

A ideia desagradou Ellie por completo, não pelas palavras ditas, mas sim pelo verdadeiro significado escondido por trás delas.

– O-o que quer dizer com isto?- inquiriu, mentalmente penitenciando-se por sua voz ter soado trêmula. Seu nervosismo era visivelmente sufocante.

Acariciando-lhe os braços suavemente, Declan aproximou o rosto de seu ouvido:

– Eu quero que você se una a mim.

Ellie fechou os olhos, sentindo-se estremecer.

– Declan, nós não…

– Não devemos citar os impedimentos, pois são inválidos. Se o destino tratou de nos colocar no mesmo caminho é porque é um direito nosso tomar possa daqueles sete anos. Não estou lhe pedindo muito. Além do mais, – ele falava com convicção, suavidade. Suas palavras eram ardilosas. – Você sempre foi minha, não foi, Ellie?

O choque da realidade invadiu-a ferozmente, como um animal abrindo-lhe a barriga. Com os olhos completamente abertos, algo em seu subconsciente parecia ter despertado de um longo período de hibernação. Lembranças de muitos anos atrás vieram à sua mente, sendo rapidamente reproduzidas por seu cérebro. Conforme as desesperadoras memórias ressurgiam em sua mente, Ellie forçava-se a acreditar que era tudo irreal, uma fantasia, um sonho ruim.

Tudo estava acontecendo com outra pessoa.

Ela tinha nove anos, e Declan quatorze. Em mais uma de suas travessuras, ele tornara a levá-la ao closet, dizendo que preparara para ela uma grande surpresa. Sua voz soava estranha e ele caminhava de um jeito engraçado. Ellie acreditou que o irmão estava doente. Mas não. Obviamente não. Tinha acabado de embebedar-se com uma das garrafas que escondera dos pais em seu quarto.

Estavam os dois dentro do closet. Declan mantinha um sorriso mesquinho nos lábios.

– O que é a surpresa que me prometeu? – ela lhe perguntara, muito empolgada.

– Algo que vai deixá-la muito, mas muito feliz, maninha.

Ele aproximara-se dela, fazendo-lhe cócegas. Ellie estava rindo, uma gargalhada alta e alegre.

Até que então, Declan enfiou as mãos por debaixo da parte superior do pijama dela, bolinando-a.

O riso cessou. Ellie encarou-o com os olhos assustados.

– Pare! – exclamou. – Não faça isso!

Mas ele não parou, empurrando-a para o chão, cobrindo-lhe a boca, arrancando-lhe as roupas e tocando com malícia todas as pequenas partes do corpo frágil.

O ato não passara daquilo. Depois de fazê-lo, ele apenas colocou-se em pé, parecendo ter desistido de seguir adiante. Soltou um risinho perverso e retirou-se do closet, trancando-o pelo lado de fora como sempre costumava fazer.

As lembranças daquele dia agora sufocavam a garota com tanta violência, que ela encontrava dificuldade em manter-se em pé, a respiração era ofegante. Voltou à realidade muito descontrolada, as mãos suavam e as pernas tremiam. Declan ainda estava atrás dela, as mãos pousadas em seus braços expostos.

– É assim que se demonstra que ama alguém. E eu sempre amei você, Ellie. – disse ele. – Ter passado todos aqueles anos longe de você foi o verdadeiro inferno. E quando finalmente regressei, descobri que… O que papai fez consigo foi terrível, claro. Mas não tanto quanto assisti-la indo embora com outro. Acha mesmo que me diverti com aquilo? Que ficaria feliz em saber que outro a tocaria? Que outro a beijaria e a tomaria como eu desejava fazer? Talvez tê-la tratado tão mal tenha sido minha forma de expressar toda a raiva e ciúme… Mas agora acabou. O próprio destino tratou de nos unir.

A quantidade de absurdos que ele dizia estava deixando Ellie atônita.

Mantendo o tom de sua voz suave e profundo, Declan sussurrou-lhe ao ouvido:

– Quero que você seja minha mulher. – depositou-lhe um beijo em seu ombro esquerdo. – Por favor, diga que sim.

Certa de que sua própria mente tratara de bloquear o trauma, fazendo com que ela se esquecesse do acontecido por todos aqueles anos, Ellie esforçou-se em manter a cabeça fixa no presente, no que estava acontecendo ali e naquele momento. Tornou a fechar os olhos, deixando que duas linhas de lágrimas descessem por suas bochechas.

Virou-se para o irmão:

– Se quer mesmo unir as duas divisões, preciso que faça um acordo formal.

– Farei o que achar necessário, querida. Mesmo. – Declan abriu um sorriso que Ellie não soube interpretar. Tomou-a pelo queixo e aproximou os lábios dos dela. Ellie desvencilhou-se dele rapidamente.

– Não. – ela disse.

Declan respirou fundo, incomodado.

– O que quer?

– Já lhe disse. Quero que faça um acordo formal, que anuncie aos seus homens que não ousem atacar minha organização.

– Não haverá guerra entre nós, Ellie. Eu lhe asseguro. – advertiu ele. – Contarei a eles ainda hoje. Terá todo o apoio de minha divisão.

– Ótimo. – ela se recompôs por completo. – Quero que saiba que também tem meu apoio.

– Estamos juntos nessa?

Ela franziu os lábios e pensou muito antes de responder:

– Estamos.

O sorriso alargou-se no rosto dele. Tomou ambas as mãos dela, olhando-a nos olhos.

– Então, talvez devêssemos selar nossa união, não acha?

Um brilho assustadoramente intenso passou pelos olhos verdes. Quando fez menção de objetar, Ellie descobriu que não fora rápida o bastante. De um súbito, Declan puxou-a para si. Aprisionou-a, imobilizando-a com seus braços e esmagou os lábios contra os dela. Em seguida, foi ao chão com ela, deitando-a sobre o piso gelado. Imóvel pelo medo, Ellie cerrou os olhos com força. Queria gritar, mas a aversão e o terror a sufocavam, mantendo-a fria, parada. Ele manteve os pulsos dela acima da cabeça, esticando seus braços enquanto ainda beijava-a a força, puxando seu vestido de cetim para baixo. Afastou o rosto do dela, ainda montado sobre o corpo da garota. Ellie abriu os olhos, vendo-o se livrar das calças com uma pressa angustiante. Logo depois, apressou-se em arrancar dela as roupas debaixo e afastar as pernas da irmã. Quando o fez, porém, Ellie deixou escapar um grito que permanecera entalado em seus pulmões desde que ele a tomara nos braços.

– Não, Declan! Por favor, não! – ela debateu-se freneticamente, tentando – em vão – tirá-lo de cima dela. Não havia ninguém por perto. Eram apenas os dois. Ninguém viria até lá para socorrê-la.

Ela seguiu lutando para se libertar, mas ele não lhe dava ouvidos, mantendo o mesmo sorriso mesquinho nos lábios. Sorriso este que fez com que Ellie se lembrasse da vez em que ele a tocara quando ainda era apenas uma criança. O terror era real. Ellie concluiu isto quando ele finalmente abriu-lhe as pernas, invadindo-a como um agressivo animal, movendo-se em incrível velocidade.

Enquanto as lágrimas deslizarem frias por seu rosto, Ellie apertou os olhos, tentando comprimir a terrível sensação de senti-lo dentro dela, movendo-se, machucando-a.

Contemplando o rosto da irmã enquanto satisfazia-se dela, Declan emitiu um riso baixo. Ellie não precisou abrir os olhos para saber que o rosto dele estava próximo. Ouviu-o sussurrar, a respiração batendo contra seu rosto molhado:

– Chore, irmãzinha. Lute comigo. Gosto disso.

Ela se esforçou para gritar novamente, mas ainda sentia-se sufocada. O peso do corpo dele sobre o dela a mantinha imóvel no chão, incapaz de fugir ou livrar-se das mãos que tocavam todas as áreas de seu corpo trêmulo.

Sentiu que ele acelerara os movimentos. A dor tornara-se maior. Ellie apertou os olhos com mais força, tentando fazer com que seu espírito fugisse dali, de seu corpo, daquele lugar. Mas não funcionara. Esperava que a entidade que habitava sua matéria se manifestasse em socorro dela, mas aquilo também não acontecera.

Quando acabou, sentiu o irmão mais velho retirar-se dela lentamente, exalando um longo gemido de plena satisfação. O peso sobre seu corpo diminuiu quando ele se levantou, colocando as calças e ajeitando o cinto. Com a respiração entrecortada, Ellie recusou-se a abrir os olhos.

Permaneceu deitada sobre o chão, desolada, sentindo-se imunda. Ouviu Declan rir novamente.

Ele ajoelhou-se ao lado dela e depositou-lhe um beijo no rosto.

– Estamos juntos nessa. – repetiu o que dissera minutos atrás.

Colocando-se em pé novamente, Declan Donovan retirou-se do galpão com ar de triunfo. Ellie, entretanto, continuou deitada no chão. Lágrimas não cessavam, ainda escapando-lhe pelos grandes olhos castanho-claros. Agarrou-se às roupas espalhadas pelo chão, soluçando violentamente. Queria que aquilo não passasse de um pesadelo. A droga de um pesadelo. Não apenas o último acontecimento, mas todos os eventos ocorridos desde o dia em que a mãe morrera naquele acidente.

Em uma dor muda e solitária, Ellie encolheu-se sobre si mesma, agora – mais do que nunca – desejando estar morta.

Não levou mais do que dois segundos para perceber que, de fato, já estava morta. Era apenas seu corpo que funcionava. Sua alma já havia sido corrompida, dilacerada e levada há muito, muito tempo. Ela não passava de um fantasma da garota que costumava ser. Um corpo no qual ausentavam-se as emoções e o espírito. Uma casca.

REBLOG | Posted 1 week ago With 0 notes
» Terceiro Ciclo - Capítulo II - Desconfianças

Caminhando de um lado para o outro com seus passos firmes e a mente sobrecarregada, Aaric Hunter deixou escapar um suspiro pesado de seus lábios finos e secos. Passou as mãos para os cabelos negros no meio dos quais havia uma minoria de fios grisalhos penteados para trás e virou-se para a figura que permanecia parada diante dele, assistindo-o afundar-se em sua própria raiva.

– A pequena impostora finalmente nos mostra suas garras. – alegou.

Dahlia Mason meneou a cabeça em um gesto neutro, abaixando os olhos.

– Refere-se ao fato de ela ter tomado para si a própria organização da qual faz parte…

– Sim, é a isto que refiro-me. – ele a interrompeu. – É a líder da última divisão da fraternidade de assassinos… Executou seu próprio superior para que pudesse tomar seu poder.

– O que era de se esperar. – disse-lhe a ruiva. Mantinha-se em pé, as próprias mãos entrelaçadas uma na outra. – Mas… Parece-me que algo mais o perturba.

Hunter ergueu o olhar severo para ela.

– Quero cortar o mal pela raiz. – ele respondeu. – Precisamos eliminá-la antes que ela aja novamente.

– Há algo em sua mente, Sr. Hunter?

– Existe algo que tem assombrado meus pensamentos, Dahlia, de fato. – Aaric Hunter soou terrivelmente sério. – Vingança.

A palavra em si não causara reação alguma na mulher. O tom com o qual o líder dos Ceifeiros do Equilíbrio a pronunciara, no entanto, fizera com que um Dahlia sentisse-se intimidada. Sabia qual seria o seguinte assunto a ser tratado. Teve certeza disto quando Hunter prosseguiu:

– A Impostora tirou-me minha esposa e filha. Assassinou-as cruelmente em minha própria residência. – suas palavras eram afiadas como navalhas, frias como seu olhar. – Quero vê-la morta.

– Sei que o caso tornou-se pessoal desde que ela fez o que fez. – analisou Dahlia. – Mas seria prudente certificar-se de que seu ataque não terá falhas. A Mulher de Verm… A Impostora – corrigiu-se imediatamente. – É uma pessoa cercada de seguidores, pessoas que certamente morreriam por ela.

– É exatamente por isto que preciso preparar-me, minha cara. – aproximou-se dela, uma expressão incerta em seu rosto vincado. – Preciso de uma arma secreta. De um plano B.

Dahlia franziu as sobrancelhas, fitando-o sem entender.

– Parece-me que já possui algo em mente.

Aaric sorriu pelo canto dos lábios sem deixar de olhá-la nos olhos.

– A profetisa. – disse ele. – Prometeu-me que a traria para mim, lembra-se?

A mulher sentiu-se subitamente angustiada. Encontrar a criança de quem Christian Madden lhe falara seria o mesmo que procurar uma agulha em um palheiro. Uma missão impossível, de fato, mas tratava-se também de sua passagem para o poder e glória. Ganharia a completa confiança de Aaric Hunter se assim o fizesse. E isto, eventualmente, a pouparia da imolação que aproximava-se a cada dia mais.

Ciente de que aquela não seria uma tarefa fácil, porém, Dahlia tratou de utilizar outros de seus dons.

Lançou para Hunter um olhar firme e determinado, aproximando-se ainda mais. Estavam face a face, e Dahlia não o poupou de suas palavras persuasivas, dizendo-lhe em tom baixo:

– Terei imenso prazer em trazê-la até suas mãos, Sr. Hunter. – os olhos verdes brilharam em ansiedade e outras emoções que Aaric não soube identificar, estranhando a aproximação dela. – Assim como orgulhosamente espero ter a oportunidade de vê-lo tomando aquilo que lhe pertence por direito. Sete anos de poder.

Aaric Hunter sentiu-se estranhamente tenso. A surpresa era grande. Contudo, algo fazia com que ele não conseguisse desviar os olhos dela.

Quando Dahlia tomou-lhe ambas as mãos nas suas e colou seu corpo ao dele. Estavam agora muito próximos. Próximos demais. O líder do templo limitou-se a se manter calado, admirado pelo toque suave e – ao mesmo tempo – inesperadamente lascivo de sua mais recente aliada.

Jamais gastara muito de seu tempo para analisá-la com outros olhos. Naquele instante, entretanto, era impossível não deixar-se levar por sua beleza ímpar.

Ondulando os quadris colados ao dele, Dahlia aproximou-se de seu rosto, sussurrando-lhe com a voz rouca:

– Eu a encontrarei e a trarei diante de seus olhos. – assistiu o efeito que seu contato produziu nele e abriu um sorriso malicioso. – Quero que saiba – ela prosseguiu. – Que estou aqui exclusivamente para servi-lo. E que farei tudo o que me pedir.

Muito lentamente, Aaric Hunter soltou-se das mãos dela, sentindo as suas próprias suarem frio. Tomou-a pelos ombros em um gesto delicado e apartou seus corpos, fitando-a diretamente nos olhos.

– Você não quer isto, creia no que digo.

– Isto? – indagou ela com os olhos semicerrados. – Do que está falando?

Hunter teve de conter toda a comoção que percorria seu corpo para manter-se sério diante da mulher.

– Nós não… Você está… – a voz dele saiu vacilante, falha. Dahlia comemorou mentalmente o fato de ter alcançado novos territórios, certa de que obteria vitória total em sua investida.

– Perdoe-me, senhor. – abaixou os olhos e fingiu sentir-se desconsertada. – E-eu não deveria ter…

– Compreendo. – ele retirou as mãos dos ombros dela, contemplando-a com ar apático ainda que seu coração estivesse exageradamente acelerado. – Bem, devo reunir alguns de meus homens para que se preparem caso o inimigo torne a atacar. Se me permite. – fez um sinal com a cabeça e Dahlia apenas consentiu com um gesto, calada.

Aaric Hunter afastou-se do salão principal da construção com o corpo e mente inebriados pelo perfume que aquela mulher deixara exalar ao entrar em contato com ele de modo tão íntimo e súbito.

Assim que o líder do grupo abandonou o local, Dahlia deixou sua respiração escapar pesadamente por entre seus lábios, encostando-se à mesa logo atrás dela. Sentia-se enojada. Muito embora seu ato fosse necessário para alcançar o que tanto almejava, objetivo este dado por seu próprio pai e mestre, Solomon Mason.

Outra presença adentrou o local, arrancando-a de seus próprios pensamentos. Erguendo os olhos para a direção de onde aproximava-se a figura que acabara de chegar.

Vendo-a um tanto perturbada, Declan Donovan abriu um sorriso insolente e alcançou-a.

– Hunter não está. – anunciou Dahlia, decidida a evitar qualquer possível conversa entre os dois. – Acaba de sair.

– Sim, eu sei. – respondeu o rapaz. – Eu o vi sair. – manteve o sorriso, fitando-a com desdém. – Aliás, não foi esta a única coisa que vi.

Dahlia sentiu-se estremecer. Franzindo o cenho, encarou-o com uma expressão forçadamente intrépida.

– Do que raios está falando agora? – inquiriu, ríspida.

– Você sequer faz ideia de onde e como encontrar a tal profetisa, não é mesmo? – deu dois passos adiante. – E nega-se a dizer a verdade a ele porque quer persuadi-lo.

Ela fez um aceno com a mão, rolando os olhos.

– Não venha até mim com falsos sermões.

– Pois está enganada se pensa que a estou reprimindo, minha querida. – o sorriso mesquinho alargou-se em seus lábios. – Tem meu total apoio se pretende usar Hunter para se manter viva. Desde que leve-me consigo, é claro.

– Já disse-me uma vez o que queria de mim. Assim como já lhe respondi que farei o que estiver ao meu alcance.

– Não me importa o que faça. – ele afirmou. – Desde que cumpra com o que me prometeu. Quero que ajude-me a tomar o que é meu.

Por um instante, Dahlia não pôde conter o riso que soou baixo e abafado.

– Vejam só. – disse ela, sarcástica. – Meses atrás você não passava de um garoto egoísta e sem escrúpulos que divertia-se à custa da própria irmã, não medindo esforços para conseguir tomar-lhe a herança de seu pai. Sem contar o breve relacionamento com sua madrasta. – viu-o arregalar os olhos diante das acusações feitas por ela. – E agora acredita ser… O que? O dono do mundo?

Ainda que seus olhos demonstrassem surpresa, o sorriso de Declan sequer ameaçou desaparecer de seus lábios. Parecia estar se divertindo – e muito – com o nervosismo notável da parte de Dahlia.

Ela abriu a boca para acrescentar algo, mas Declan a deteve, avançando para ela e prensando-a contra a mesa de madeira logo atrás. Aproximou seu rosto do dela, afastando-lhe uma mecha avermelhada que caíra-lhe sobre o rosto.

– Escute bem, querida. – sussurrou-lhe em um tom falsamente ameaçador. – Sou muito paciente, acredite. Mas não tolerarei ser passado para trás. Acho bom que cumpra com o que me prometeu se ainda quiser livrar seu belo traseiro da mira desse bando de malucos.

Dahlia afastou-o bruscamente, empurrando-o com ambas as mãos.

– É um deles também. – resmungou ela.

– Talvez. Mas tenho a cabeça no lugar. – afirmou o mais novo. – Aliás, é a única coisa que me resta.

– Sanidade? – Dahlia fez menção de rir, mas manteve-se firme. – Isto está em falta há muito tempo, especialmente num lugar com esse.

– Bem, parece que é o que também lhe falta. – ironizou.

Ela rolou os olhos e deu dois passos à frente, encarando-o.

– Não me subestime se tenciona manter-se vivo.

– Longe de mim. – Declan abriu outro sorriso, fitando-a nos olhos.

Afastando-se dali, Dahlia deixou-o sozinho. O ambiente fora deixado para trás mais carregado e tempestuoso do que nunca.

Porém nem tanto quanto sua mente.

–—

Sentada à mesa da cozinha da Catedral, Alena Braxton tornou a ler pela vigésima vez as escrituras postas no livro que passara a ler a pedido de Christian Madden. Com o passar dos dias e com o avanço causado devido ao seu esforço, ela acreditava veemente que estava se saindo muito bem em seus estudos. Sentindo-se muito confortável, com o rosto apoiado em uma das mãos, ela sequer notara a presença de seu instrutor adentrando o pequeno cômodo.

– Muito apreensiva? – indagou, encostando-se a pia com um copo d’água em mãos.

Alena ergueu os olhos azuis-escuros para ele, retornando à realidade.

– Devo estar. – respondeu-lhe.

Madden retribuiu a ela um sorriso gentil.

– Quais foram as desculpas que inventou dessa vez? – ele quis saber. – Quero dizer, a mulher de seu irmão não deve fazer ideia de que você tem estado aqui.

– Disse-lhe que ia visitar uma amiga. – Alena esclareceu, tornando a deitar os olhos sobre o livro aberto.

– É convincente. – o exorcista bebericou de sua água e calou-se por instantes, desviando seu olhar.

Com os olhos muito fixos nas palavras postas nas páginas à sua frente, Alena sentiu sua visão tornar-se turva. Tudo começou a girar, subitamente. A cabeça passou a latejar fortemente, forçando-a a encolher-se sobre a mesa.

Percebendo a estranha comoção da parte dela, Madden adiantou-se para a garota, abandonando seu copo sobre a pia.

– Alena, o que há? – agachou-se ao lado da cadeira onde ela se sentava.

– M-minha cabeça… – balbuciou tentando comprimir a súbita enxaqueca. – D-dói…

Tomando a liberdade de depositar uma de suas mãos sobre a nuca da menina, o exorcista tentou acalmá-la.

– Tem dormido regularmente? Se alimentado?

– Sim… – virou-se para ele. Seus olhos se abriram em uma expressão horrorizada que Christian não soube interpretar. – Seria um… Será que está se manifestando novamente?

– O que? – perguntou sem entender. Logo, porém, Christian compreendeu que a jovem Braxton referia-se à possessão que sofrera anteriormente, ao ter contatado uma entidade maligna no banheiro de sua suíte. A simples lembrança do sofrimento da garota fez com que Madden sentisse-se receoso. Não queria tornar a vê-la naquele estado. – Não… – ele balançou a cabeça negativamente e ergueu o rosto para ela. Um sentimento de compaixão e preocupação dominou-o – Não, Alena. Está tudo bem.

Ternamente, o exorcista aproximou-se, envolvendo-a em seus braços em um gesto amigável. Para Alena, entretanto, a reação dele não poderia demonstrar outra coisa a não ser o mesmo que o dela própria.

Amava-o.

Amava-o de forma tão inesperadamente intensa que quando admitira isto para si mesmo, descobrira-se chocada. Ele era tudo o que o pai nunca fora em sua vida. Tudo o que seu irmão nunca demonstrara ser. Era o extremo oposto de todos os rapazes com quem dividira a cama desde que passara a frequentar as festas do colégio.

Preocupava-se com ela, estava disposto a ajudá-la.

O que sentia por Christian Madden era de longe algo que jamais sentira por qualquer pessoa antes.

E estava certa de que era correspondida, ainda que as circunstâncias fossem contra seus recém-explorados sentimentos.

Desejava ficar ali para sempre, sentindo seus braços ao redor, protegida, aliviada, feliz. Mas o contato fora imediatamente quebrado uma vez que alguém adentrou a cozinha, pigarreando.

Madden afastou-a, virando o rosto para a porta.

Um homem de aproximadamente sessenta e poucos anos, cabelos brancos ralos e olhos pesados encontrava-se na entrada do cômodo, trajando branco. Sua expressão era série, mas a energia que emanava dele era tranquilizadora.

Alena não o conhecia.

Mas Christian sim.

– Bartholomew. – disse o caçador de demônios. Colocou-se em pé e fitou o homem com curiosidade. – O que faz aqui?

– Não queria interromper. – explicou-se o superior da Ordem. – Mas precisava falar consigo, filho.

Christian desviou seus olhos dos dele.

– Não há nada que tenha para me dizer, estou certo disso. Não sou um dos seus. Expulsou-me de seu grupo, lembra-se?

– Christian, sei muito bem o que fiz e disse. – afirmou Bartholomew. – O que tenho para lhe dizer é de extrema importância. Tudo o que lhe peço são cinco minutos.

Respirando fundo, o exorcista virou-se para Alena.

– Voltarei em um instante. Continue sua leitura. Lhe trarei uma aspirina se a enxaqueca voltar a lhe incomodar.

A garota consentiu com a cabeça.

– Obrigada. Já sinto-me bem melhor. – e sorriu.

Afastando-se dali, Christian Madden foi seguido por Bartholomew. Seguiram até o altar, sentando-se nos primeiros bancos da fila de assentos da Catedral. Sentaram-se lado a lado, e o mais velho logo pôs-se a falar. A voz era baixa, cautelosa.

– Preciso falar-lhe sobre Dahlia.

Christian franziu o cenho.

– Mas o que há com ela?

Bartholomew exalou um suspiro pesado.

– Tem agido de forma extremamente estranha e suspeita. Desconfio de algo.

A confissão dele pegou Madden de surpresa. Encarando-o, o exorcista indagou:

– De que?

O homem não hesitou em responder:

– De que seja uma traidora.

REBLOG | Posted 2 weeks ago With 0 notes
» Qual é o seu dreamcast para Sete Demônios?

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Se você pudesse escolher o elenco para a história, qual seria?

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REBLOG | Posted 4 weeks ago With 0 notes
» Terceiro Ciclo
REBLOG | Posted 4 weeks ago With 0 notes
» Terceiro Ciclo - Capítulo I - O Novo Decreto

“Apenas os mortos verão o fim da guerra.” – Platão.

˟˟˟

A sombra das árvores que encontravam-se ao norte do que parecia ser um deserto de solo infinito mais pareciam um milagre vindo dos Céus. O calor da manhã era insuportável, mas o aquecimento súbito que alcançava o ambiente quando o sol chegava ao meio do céu era uma verdadeira tortura. Ainda assim, não havia sinal algum de umidade ou brisa. O ar era seco. O cansaço vinha logo em seguida, acompanhado da fome e da sede. Todo o desgaste humano de uma só vez, tomando conta dos corpos que percorriam o trajeto até uma saída ainda desconhecida. Uma saída daquele inferno.

Sentando-se ao tronco de uma das árvores, James Braxton colocou-se a limpar as mãos manchadas de sangue, utilizando as folhas secas que cobriam o chão logo abaixo de seus pés. À sua frente, a pequena Willow mantinha-se adormecida após o terror que fora a noite anterior.

Lembrava-se ainda com clareza dos últimos eventos, da forma como derrubara os homens da desconhecida seita que encontraram no meio daquele lugar, da garota que enfrentara-o armada de um arco e uma flecha logo depois, pronta para atacar como um animal ameaçado. Fora súbito o desmaio da jovem, o que a impediu de acertá-lo em uma só tentativa.

Tomado pela incerteza, mas também pela rara gentileza humana que agora parecia fazer parte de sua nova vida, Braxton dera-se ao trabalho de levá-la consigo enquanto Willow perguntava por diversas vezes para onde iriam.

James negou-se a responder, pois desconhecia uma explicação coerente para apresentar à menina. Contudo, seguiu até as árvores, carregando a desconhecida nas costas. Willow Hope viera logo atrás, cansada demais para seguir perguntando. Acabara por dormindo ali mesmo, debaixo de uma das árvores. Vendo-a entregue ao sono, James sentira-se mais aliviado, posicionando a garota desmaiada ao lado da profetisa.

Assentou-se ao tronco da árvore em frente, tomando posse do arco e da flecha que levara pendurados no ombro esquerdo enquanto encarregava-se de levar a desconhecida consigo.

Estudando os objetos minuciosamente, Braxton descobriu que a arma fora feita com madeira, construída delicadamente à mão.

A curiosidade invadiu-o antes que pudesse impedi-la. Não fazia ideia do que ocorrera na noite anterior. Tal como ainda não conhecia uma saída para aquele lugar tão afastado da civilização.

Assustou-se de imediato quando sentiu que tocavam-lhe o ombro esquerdo suavemente. Virando-se, James viu-se diante de Willow que acabara de despertar. Ele sequer notara.

– Desculpe. – ela disse, timidamente.

– Está tudo bem. Como se sente?

A garota olhou ao redor e respirou fundo, sentando-se ao lado dele.

– Minha cabeça dói. – queixou-se.

– Vai passar. – ele assegurou. Deixou o arco e flecha de lado e ajeitou-se ao tronco da árvore, sentindo-se completamente exausto.

Houve uma terceira comoção, porém, trazendo-o imediatamente de volta ao seu posto de alerta. Procurando com os olhos, encontrou o corpo outrora desacordado diante dele movimentar-se, esforçando-se para se levantar.

Abrindo os olhos com cautela, permitindo que a luz do sol se sentisse livre para penetrar sua visão, a garota desconhecida deparou-se com os rostos daqueles que na noite anterior avançaram para seus inimigos, aqueles cujos corpos agora provavelmente encontravam caídos ao chão, alguns inconscientes, outros dilacerados. As memórias da noite passada foram rapidamente processadas por seu cérebro, fazendo com que ela fosse invadida pelo súbito choque da assimilação.

James avançou para ela, colocando-se em pé e caminhando em sua direção. A jovem imediatamente arregalou os olhos, afastando-se. Ainda encontrava-se ao chão, sentada, as roupas sujas e rasgadas, uma expressão desconfiada em seus olhos acinzentados.

– Sente-se bem? – ele perguntou-lhe, simplesmente.

Não houve resposta. Ela mantinha-se calada, fitando-o com infinita desconfiança.

Braxton suspirou e estendeu-lhe uma das mãos.

– Vamos. Eu a ajudarei a se levantar. Acho que consegue ficar em pé, não?

Mas ela instintivamente recuou diante do gesto dele, assustando-se como um filhote abordado por um predador muito maior.

Por sua vez, Willow adiantou-se para a garota, sorrindo-lhe gentilmente. Agachou-se perante ela e advertiu:

– Somos seus amigos. Não lhe faremos mal algum.

A desconhecida virou seu rosto em uma atitude pouco educada. Claramente desconfiava das pessoas ali presentes, negando-se a lhes dirigir qualquer palavra. Willow Hope, entretanto, tirara outra conclusão diante daquela situação.

– Acredito que não consiga nos entender. – virou-se para Braxton. – Não fala nosso idioma.

James abafou um riso que soou bufante e balançou a cabeça negativamente.

– Oh, excelente! – exclamou, irônico.

Quando os olhos da garota depararam-se com seu arco e flecha deixados no tronco adiante, ela fez menção de rastejar-se até eles, pronta para tomar posse de sua arma. Braxton deteve-a colocando o pé sobre o arco. Levantando o rosto, ela encontrou-se com o olhar severo que ele lhe dirigia.

– Pode não entender o que digo, mas sei bem que intenções tem. – assegurou ele. – Nada de ataques traiçoeiros por aqui. Goste ou não, deve-me sua vida.

Novamente, ela negara-se a lhe responder. Fitou-o com intensidade até não suportar mais o olhar que ele mantinha direcionado a ela, acabando-se por virar-lhe o rosto.

Abaixando-se, James tomou posse do arco e da flecha, olhando adiante. Ouviu-se um som inesperado, algo baixo como um pequeno ruído distante. Willow não precisou esforçar-se para reconhecer o som.

– Um carro! – exclamou. – É um carro!

– Deve haver alguma estrada aqui perto. – observou Braxton. – Talvez o alcancemos. Vamos.

Começaram a se afastar, até James frear seus passos. Virou-se para trás, tornando a estender a mão para a garota silenciosa que ainda encontrava-se sentada ao chão.

Mais uma vez ela parecia se negar a aceitar-lhe sua ajuda.

– Veja bem. – ele disse. – Isto não é um pedido. Ou vem conosco, ou morrerá.

O olhar insípido manteve-se estampado no belo rosto jovial da desconhecida. Desta vez, porém, ela cedeu, engolindo o próprio orgulho a seco. Tomou-lhe a mão que James lhe estendia e pôs-se em pé.

Seguiram para fora do pequeno monte de árvores que segundos antes lhes fora utilizado como refúgio.

Willow vinha logo na frente, deixando-se guiar pelo som distante do motor que invadira sua audição como mágica. Um milagre.

A pequena profetisa estava segura de que era disto que se tratava.

Seu deus jamais lhe falhara.

–—

Ocorrera uma inesperada modificação na Sétima Divisão da Fraternidade. Não apenas em suas regras e leis, mas também em sua estética. O galpão principal fora limpo instantes depois da execução de Vincent Hurst. No mesmo local onde deceparam-lhe a cabeça, colocaram uma bela poltrona revestida em tecido de tom escarlate, emoldurada por madeira maciça. Adiante, um longo tapete também avermelhado que se estendia de seu início até a entrada principal do local. As paredes agora possuíam um aspecto completamente diferente, novo. Foram todas pintadas da mesma cor. Vermelho. Lustres gigantescos encontravam-se logo acima. Todo o ambiente tornara-se um local sagrado. Um templo.

Na sala que costumava pertencer ao superior da organização, colocaram uma mesa de madeira outrora utilizada para reuniões. Não fora diferente desta vez. Talvez a única coisa que não havia mudado.

A Sétima Divisão estava em reunião. E esta estava sendo regida por sua nova líder

Eleonora assentou-se em seu local de destaque. Era ela agora quem liderava toda a organização. Seus irmãos da Fraternidade encontravam-se assentados ao seu redor, tomando seu lugar à mesa.

Michael Graber fora o primeiro a romper o silêncio, anunciando o resultado das buscas que fizera desde que Vincent fora executado.

– As demais divisões estão enfurecidas, o que já era de se esperar. – colocou ambas as mãos debaixo da mesa, trêmulo. A nova postura tomada pela jovem Ellie deixava-o nervosíssimo. – Pensam em tirá-la da Fraternidade.

A garota de cabelos dourados emitiu um riso sarcástico, tomando o cuidado de manter um meio-sorriso no rosto enquanto respondia.

– Pois que tentem. Não serão páreos para mim e para aqueles que lutam ao meu lado. – virou-se para todos eles. – A partir de hoje, seguiremos uma nova regra neste meio. A partir de hoje, – colocou-se em pé, as mãos sobre a mesa de madeira, um olhar severo em seu belo rosto. – Meu único objetivo será tomar o que é meu para que, assim, eu tenha poder suficiente para executar justiça por aqueles que merecem.

Joshua Wilder – que mantinha-se calado até então – ergueu seu rosto para ela, fazendo menção de se manifestar.

– Está comprando guerra contra as outras seis divisões, Ellie. Isto não…

Eleonora se virou bruscamente na direção do rapaz.

– Domina. – ela o corrigiu. – Sou a líder desta divisão agora, espero que não se esqueça.

– Sim, domina. – Wilder abaixou a cabeça, fitando as próprias mãos.

– A guerra já é inevitável. – Ellie afirmou. – Atingimos um ponto sem volta. Haverá guerra, seja ela contra a Ordem ou contra nossos outros irmãos. As outras divisões não são minha prioridade no momento.

– Pois deveriam ser. – advertiu Graber. A garota fitou o advogado com surpresa.

– Por que diz isso? – ainda em pé, Eleonora manteve sua postura superiormente firme. Com os cabelos presos para cima e o vestido vermelho de corte perfeito emoldurando o corpo frágil, ela parecia mais severa do que deveria.

Lentamente, Michael levantou os olhos escuros para ela, fitando-a com imensa seriedade. O que descobrira nos últimos dias certamente a deixaria furiosa. E isto, definitivamente, era o que Graber menos desejava naquele momento.

Seu timbre de voz soou hesitante quando anunciou:

– A Segunda Divisão, ao menos, deveria estar em sua lista de prioridades, El…Domina. – umedeceu os lábios secos pelo nervosismo rapidamente.

– E por quê? – ela arqueou uma das sobrancelhas.

– Porque eles têm como futuro novo líder seu irmão. – a resposta atingira-a como um soco no estômago. Ellie arregalou os olhos castanho-claros, incrédula.

– Declan? – indagou. – O que diabos ele faria na Fraternidade?

– Ora, bem… – o advogado suspirou. Tornou a olhá-la nos olhos segundos depois, muito cauteloso com as palavras. – Os membros da Segunda Divisão acreditam que seu irmão seja o verdadeiro escolhido para governar por sete anos sobre toda a Terra.

Eleonora fora obrigada a engolir o choque que as palavras de seu protetor causaram-lhe. Tentando esconder sua reação, ela esforçou-se em se manter muito séria diante da nova questão apresentada naquela reunião.

– Em que se baseiam estes homens? – inquiriu. Havia agora uma expressão taciturna e crítica em seu semblante.

– Teorias. – respondeu-lhe Graber. – Crenças. Acreditam que Declan seja a reencarnação de Lucius Walford, antigo summus da Segunda Divisão. – fitou-a com mais intensidade. – Amante de Elizabeth Knightingale, a Dama da Morte.

A colisão entre a realidade e a surpresa deixou-a atônita. Ellie ligou os pontos imediatamente, seguindo seus instintos recém-explorados.

– Aquela que habita minha matéria… – murmurou para si mesma, cabisbaixa.

Thomas Montgomery – o velho atirador agora aceito na organização – mostrou-se parte da conversa, colocando-se em pé logo ao lado da jovem.

– Se está tão certa de que Elizabeth é o espírito que habita seu corpo, domina

– Sim, estou. – ela respondeu, erguendo o rosto para ele. – Elizabeth é o espírito que tomou-me como portadora… Como… Mas então… O que planejam? – olhou para seu advogado.

– Eu não tenho completa certeza. – Michael suspirou.

– Bem, então o que me sugere? – impaciente, Ellie buscava por soluções, não por mais problemas. Os que tinha de enfrentar já lhe eram mais do que suficientes. – É meu conselheiro, não? Diga-me, Sr. Graber, o que devo fazer em relação a isto?

Michael Graber respirou fundo, deixando o ar escapar de seus pulmões cheios em uma ação brusca que deixou transparecer toda a sua frustração momentânea.

– Talvez deva contatá-lo. Quero dizer, é seu irmão. Se não conseguir evitar a possível guerra entre esta divisão e as demais, ao menos contaria com a possibilidade de unir laços com a Segunda Divisão.

– Sugere-me que fale com meu irmão? – constatou a garota. – Que eu tente aliar-me a ele?

– Não consigo ver saída mais clara, domina.

Passando as mãos pela cabeleira farta, Ellie suspirou profundamente. Todas as emoções dos últimos dias sequer poderiam ser consideradas stress. Eram fragmentos de uma gigantesca avalanche de frustrações, tribulações que a estavam perseguindo desde o dia em que entrara para aquela organização. Desde aquelemaldito dia.

Tornando a erguer o rosto lívido e frio, Eleonora decretou:

– Sr. Graber e Ryder me acompanharão. – se virou para os dois. E, em seguida, para Thomas Montgomery, tomando-lhe ambas as mãos entre as suas. – Confio-lhe a segurança desde local enquanto eu estiver fora.

– Agradeço-lhe a confiança, domina. – sorriu-lhe o velho homem.

Ellie observou os rostos de seus irmãos da Fraternidade, todos fixos em sua direção, atentos e presos na expectativa de boas decisões tomadas por ela própria.

– Farei uma visita à Segunda Divisão. – anunciou, muito séria. – Meu irmão e eu temos assuntos a tratar.

Bryan Carter finalmente tomou voz, deixando escapar um risinho baixo e inconveniente.

– O maldito filho da mãe se negaria a selar acordos conosco ou com a vossa pessoa. – alegou o assassino, cético. – Certamente estaria acelerando o processo de todas as coisas. Irá arranjar uma guerra ainda maior entre esta divisão e a aquela a qual seu irmão pertence. Uma guerra pelos sete anos de reinado, claramente.

Eleonora inclinou o rosto para cima, um gesto superior e intrépido, fitando Carter com os olhos estreitos e frios.

– Pois se assim for, – disse. – Que vença o melhor.

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» Banner do Terceiro Ciclo

O primeiro capítulo do Terceiro Ciclo de 7D será postado muito em breve. Enquanto isso não acontece, confira o banner da terceira fase da história:

REBLOG | Posted 1 month ago With 0 notes
» Segundo Ciclo - Capítulo XXX - Por Justiça

A noite parecia estar aproximando-se de forma rápida. Rápida demais. Ainda que o sol brilhasse fortemente sobre o solo, aquecendo-o de maneira absurdamente insuportável, a escuridão avizinhava-se cada vez mais.

Caminhando lentamente debaixo dos raios solares que pareciam tencionar derreter-lhes a cabeça, era difícil reconhecer o local onde estavam.

O acidente ocorrera três horas antes, quando o avião que os levava chocara-se conta o solo, terminando parcialmente destruído. Quando descobrira-se em vida, James Braxton acreditou veemente que presenciara um milagre. Havia ferimentos por seu corpo, mas nada que o impedisse de escapar entre ferragens e cadáveres daqueles que vinham na cabine do avião de pequeno porte. Encontrara a pequena Willow desacordada e, desesperado para fazer com que a menina despertasse, James entrou em pleno pânico. Willow, entretanto, voltara a si logo em seguida, muito assustada. James ajudara-a a retirar-se do meio das ferragens, e seguiram calados sem rumo algum.

Se estivesse seguindo completamente seu instinto e percepção, James Braxton afirmaria com convicção que estavam em solo mexicano, próximos à fronteira com os Estados Unidos. O deserto ao redor deixava clara tal suposição.

Contudo, não era possível ter completa certeza.

Para a pequena Willow, nenhum trauma aproximava-se da apatia com a qual tratava a morte agora. Presenciara momentos terríveis, de modo que sua mente tornara-se quase que blindada. Calada, a menina seguia os passos de Braxton sem objetar.

O silêncio prevaleceu pelo que mais parecia ser o infinito. Willow Hope acreditou que a situação se manteria daquela forma, que hora ou outra ambos cairiam mortos no solo quente devido à desidratação, fome ou cansaço. Ou todos os três fatores juntos.

Desta vez, definitivamente, não haveria saída.

Fora pega de surpresa quando a voz de James irrompeu no ar, quebrando a tensão e o silêncio de uma só vez.

– Precisamos seguir até encontrarmos uma carona.

Willow franziu os lábios secos. A ideia lhe parecia tola.

Braxton prosseguiu rapidamente:

– Deve haver algum… Abrigo, não sei. Arranjaremos comida e algo para beber.

A menina negou-se a se manifestar. Nenhum dos dois brecava seus passos, ainda que parecessem estar sucumbindo ao desgaste físico. Com os grandes olhos fixos no deserto adiante, Willow colocou-se a rezar mentalmente, fazendo inúmeras preces que aparentemente não alcançariam os ouvidos de Deus. O local parecia esquecido pelo mundo. Fez com que Willow acreditasse que o Inferno fosse ali. E ela estava nele. Queimando viva debaixo do sol escaldante, sentindo seu estômago dar mil e uma voltas em torno de si mesmo, seus lábios se partindo e seu coração enfraquecendo a cada passo que se arrastava, avançando lentamente.

Atormentado pelo silêncio da garota, James virou-se bruscamente e ajoelhou-se perante ela, segurando-a pelos ombros.

– Eu quero que me escute. E quero que me escute muito bem. – olhou-a com severidade, como se quisesse meter-lhe comandos em sua mente. – Disse-me que tem um deus poderoso. Seja o que for o que ele lhe concedeu, foi isto que fez com que me trouxesse de volta à vida. Se seu deus é tão justo como diz, certamente ele lhe fará justiça. Sairá viva desta situação.

Com os olhos cansados, Willow olhou-o apaticamente. Sua voz doce e jovial não passava de um sussurro patético quando afirmou:

– Você também sairá vivo desta situação. Mais uma vez. Com toda a certeza.

Franzindo o cenho, Braxton foi subitamente tomado pela surpresa.

– O que quer dizer com isto?

– Eu o vi lutando esta noite, obtendo vitória. Esta noite você lutará em nome da justiça. E Deus é a justiça. Está no caminho certo.

Isento de certeza, com o semblante coberto de dúvidas, James suspirou e colocou as costas de uma das mãos contra a testa suada da menina.

– Está delirando.

Os olhos da pequena profetisa mudaram de direção, avistando algo por cima dos ombros dele. Sua expressão mudou repentinamente.

James pôde ouvir a respiração ofegante de uma terceira presença soar por detrás dele próprio. Seguindo a direção do olhar de Willow, Braxton virou-se lentamente para trás.

Deparando-se com um canídeo de porte médio. A coloração de seus pelos beirava ao castanho-claro, com uma listra prateada que estendia-se por suas costas. Os olhos vigilantes e intimidadores, e as presas escancaradas.

Muito lentamente, sem deixar de fitar o animal, James colocou-se em pé. A criatura selvagem rosnou alto, colocando-se em posição de ataque.

– Shhh… – Braxton fez um sinal discreto para que Willow não se manifestasse. – Com muita calma… Muita calma… – começou a aproximar-se do animal em passos cautelosos, os olhos fixos nos olhos da criatura. Ocorreu uma estranha comoção interior em Braxton no momento em que seus olhos encontraram-se com os do cão selvagem. Uma estranha familiaridade. Algo curioso e inexplicável. – Está tudo bem…

Um grito subitamente ecoou aos quatro cantos, fazendo com que tanto James quanto Willow estremecessem diante do cão.

O animal procurou por algo com os olhos, girando ao redor, atento ao som.

O grito soou novamente, desta vez mais alto e horrorizado.

– O que foi isso? – Willow arriscou perguntar.

De repente, o canídeo emitiu um som como se quisesse dizer-lhes algo e correu em meio às árvores que encontravam-se mais adiante, desaparecendo em meio à troncos e folhagens secas.

– Venha. – Braxton tomou a mão da pequena profetisa e esforçou-se em arrastar-lhe consigo enquanto seguiam a direção de onde supostamente vinham os gritos.

Seguiram em alta velocidade por entre as árvores. Willow Hope deu-se conta de que a noite finalmente caíra sobre eles. Já não sentia sua pele queimar sob o calor do sol, mas seu coração escoiceava o peito violentamente, fazendo queimar todas as células de seu corpo frágil. Não conseguia manter os olhos abertos, quase entregue ao próprio cansaço.

Foi apenas quando sentiu que James já não corria mais, a arrastando consigo, que Willow regressou à realidade, forçando a si mesma a manter os olhos abertos.

Suas narinas dilataram imediatamente quando inalou fumaça. Havia fogo. E não apenas isto, também havia pessoas. Um grupo de pessoas que trajava branco caminhava ao redor de algo semelhante a um altar improvisado no meio de uma antiga construção de aparência arruinada. O grupo de aproximadamente dez pessoas resmungava algo impossível de se compreender de imediato, segurando em suas mãos direitas tochas acesas.

Fixando seu olhar no centro do altar, Willow Hope avistou algo preso à madeira. Mas não tratava-se de algo, e sim de alguém.

Os gritos partiam da pessoa amarrada ao altar, gritos de pânico e horror.

Somente quando a percepção o invadiu por completo, James Braxton pôde compreender o que diziam as pessoas que rodeavam o pequeno altar.

– Esta noite nós libertaremos nossas almas da maldição que caiu sobre nossa era! – anunciou um deles, um homem de meia-idade coberto em seus trajes brancos como a neve. – Maldição esta que iniciou-se com a promiscuidade humana. Esta noite, meus irmãos, nós restauraremos a inocência!

O resto do grupo consentiu com glorificações e gritos de guerra. O sujeito acrescentou, erguendo suas mãos ao céu.

– Nesta noite travaremos uma luta contra o demônio. A criatura maligna e impura que desta vez vem escondendo-se por detrás de uma face inocente. – apontou para a pessoa presa ao altar. – Esta mulher abriga nosso inimigo. E nós fomos os escolhidos para enviá-lo de volta ao lugar de onde veio, para que queime no fogo eterno do Inferno.

As glorificações surgiram novamente e o homem foi aplaudido por seus seguidores. O – supostamente – líder do grupo tomou uma segunda tocha em mãos, aproximando-se do altar improvisado. A mulher ali amarrada soltou outro grito, choramingando.

– Cale-se, maldito! – ordenou o velho. – Seu tempo está encurtando-se. A vitória pertence aos verdadeiros donos da verdade.

Outro grito escapou dos lábios da desconhecida. Seu desespero tornou-se ainda maior quando o homem fez menção de deitar as chamas sobre a madeira que sustentava seu corpo amarrado. Ela debateu-se, tentando desvencilhar-se, mas suas tentativas seriam claramente executadas em vão.

Havia um sorriso débil nos lábios do homem, seus olhos tinham um brilho infernal. O sorriso alargou-se conforme as tochas aproximavam-se do corpo da garota. Ele murmurava algo, entregue à sua insana ideia de justiça, pronto para assisti-la queimar quando uma súbita presença alheia fez com que seus instintos fossem atiçados.

Quando fez menção de virar-se para trás, não tivera tempo de reagir. Um animal que possuía quase o dobro de seu tamanho jogara-se contra ele, fazendo seu corpo ser projetado ao chão. Gritos escaparam dos seguidores de seu culto, enquanto o animal arrancava-lhe metade do rosto em uma mordida única e brutal.

Um de seus homens aproximou-se, tentando atear fogo na criatura, mas algo puxou-o pelo ombro. Virando-se para trás, o sujeito sentiu que algo chocava-se contra sua face, jogando-o para trás.

Vendo o homem que acabara de atacar com o punho cerrado, James Braxton correu para um segundo desconhecido, batendo-lhe contra o estômago com força. Seguiu atacando os seguidores do estranho ritual, derrubando-os sem qualquer sinal de dificuldade. Uma estranha força inumada lhe havia sido concedida no momento em que avançara para eles.

Willow Hope afastou-se do meio das árvores, correndo para o altar no meio das ruínas. Aproximou-se da desconhecida presa à madeira, tentando com todas as suas forças desatar os nós das cordas que a mantinham no altar.

Enquanto desamarrava-lhe os braços, a pequena menina ousou espiar pelo canto dos olhos o imenso canídeo que devorava o corpo do líder que outrora tencionava atear fogo no altar. Sentiu seu estômago girar ainda mais rápido, enojada com a cena. Quando percebeu que havia libertado a mulher, tornou a olhar para o altar. Ela já não encontrava-se mais ali.

Frente a frente com o último homem que restará em pé, James viu-o tentar atacá-lo com sua tocha acesa.

– Mais um passo e eu o queimarei vivo, discípulo do diabo! – assegurou o sujeito.

Braxton inclinou a cabeça para um dos lados, esboçando seu melhor sorriso sarcástico, intrépido.

– Eu não teria tanta certeza.

O animal que instantes atrás alimentava-se do corpo do líder do culto, agora saltava sobre o homem que empunhava a tocha, surgindo por detrás dele.

Arrancou-lhe a cabeça com uma só patada, grunhindo ferozmente sobre a carcaça sangrenta que tornara-se o corpo do homem.

James assistiu-o desmembrar o sujeito em movimentos bruscos e rápidos, até que a criatura virou-se para ele. Seus olhos eram vermelhos como sangue e cruéis como os do próprio diabo. Analisando-o com atenção, esforçando-se para vê-lo em meio às trevas, James Braxton não pôde deixar de sentir-se espantado ao notar a listra prateada que o animal levava em suas costas.

Fungando pesadamente, o cão gigante virou-se e correu para as árvores, sendo engolido pela escuridão da noite.

Ouviu-se um click seco.

Tomado pela certeza de uma nova presença que surgia logo atrás, James Braxton virou-se instintivamente.

Seus olhos cruzaram-se com os olhos acinzentados – que mesmo sob a mais plena escuridão irradiavam uma luz única – da desconhecida que empunhava um arco acinzentado no qual, utilizando uma de suas mãos, ela esticava uma flecha, mirando Braxton minuciosamente. Com os fartos cabelos castanho-escuros amarrados para trás e as roupas sujas e amassadas, ela não emitiu um só movimento, fixa como uma estátua.

James sentiu algo tocar-lhe a mão. Willow havia se colocado ao lado dele. Imediatamente, a menina reconheceu a mulher. Fora aquela que acabara de desamarrar. Aquela que o grupo tencionara sacrificar por alguma razão. Os olhos da profetisa arregalaram-se em admiração ao deparar-se com a arqueira.

Olhando-a no estado em que estava, não aparentava perigo algum.

Mas, melhor do que ninguém, James Braxton estava completamente ciente de que as aparências enganavam.

E muito.

–—

Muito ansiosa, Eleonora adentrou o prédio da Sétima Divisão, seguindo o corredor até o galpão principal. Vincent Hurst pedira a ela para que comparecesse urgentemente ao local.

Pela voz empolgada de seu superior, Ellie acreditou que fosse receber boas notícias, finalmente.

Caminhou sobre seus saltos altos na direção do galpão, deparando-se com osummus. Hurst virou-se e um sorriso delineou seus lábios no momento em que avistou a jovem. Estendeu-lhe ambas as mãos e seus olhos brilharam.

– Minha querida.

Ellie sorriu sem entender e deixou que ele tomasse-lhe as mãos, depositando um beijo em sua face em um gesto terno.

– O que houve desta vez, Vincent? – ela perguntou, sem hesitar.

– Precisava lhe explicar isto em pessoa. – o sorriso desapareceu no rosto do homem e ele agora parecia terrivelmente perturbado. – As demais divisões definitivamente querem bani-la da Fraternidade.

A garota agitou sua cabeça meneando-a negativamente, uma mecha dourada de seus cabelos caiu-lhe sobre a testa e ela ergueu os olhos para seu superior.

– Isto me é indiferente.

– Não deveria ser. Não mais. – afirmou Vincent. Ele virou-se e começou a caminhar de um lado para o outro. – Algo mudou, Ellie.

Ela arqueou uma sobrancelha, confusa.

– O que mudou?

– Acreditam que… – um suspiro impediu-o de prosseguir. – Lembra-se da história que lhe contei quando veio até mim?

Um sorriso desconsertado surgiu no canto dos lábios de Ellie.

– Tenho ouvido muitas histórias desde então.

– Refiro-me à Elizabeth Knightingale. A Dama da Morte. Você estava curiosa a respeito dela, não estava?

– Julguei este um assunto intocável em nosso meio.

– E é, de fato. – ele consentiu. – Mas não deixarei que isto me impeça de explicar-lhe a proporção da guerra que ameaça rebentar.

– O fim d…

– Não, Ellie. Estou falando da guerra entre todas as sete divisões. Algo que está se iniciando porque acreditam que Elizabeth regressou dos mortos e planeja vingança.

Aquilo não estava seguindo caminho algum, não havia coerência nas palavras de Hurst. Ellie não conseguia decidir-se entre rir ou permanecer calada.

Vincent seguiu explicando:

– Acreditam que ela tenha reencarnado, que tenha regressado do Inferno.

– Ainda não estou entendendo…

Ele virou-se bruscamente para ela:

– Eles acreditam que você seja a reencarnação de Elizabeth Knightingale.

Dentre todas as mais absurdas teorias e lendas que ouvira desde que entrara para aquele mundo, aquela com certeza fora a mais fantasiosa. Ellie gargalhou alto demais, deixando transparecer seu nervosismo e incerteza.

– Mas que diabos? – riu-se a jovem. – Isto é um absurdo, Vincent. Estão ficando todos loucos.

– Eles deveriam saber, claro… – murmurou ele em um tom de voz vacilante. – Elizabeth foi morta pelo fogo, do fogo ela regressaria, e seria imune a ele… Faz todo o sentido…

As afirmações aleatórias do homem deixaram Ellie perplexa.

– Do que está falando?

– Sabe que esta divisão será sua algum dia, não é mesmo? – ele inquiriu, subitamente. – Conhece seu lugar.

– B-bem, sou sua substituta conforme mandam as tradições…

– Elizabeth tomou para si todas as sete divisões. – esclareceu. – Enquanto era destruída pelo fogo, clamava aos sete demônios para que a trouxessem de volta sete vezes mais poderosa. – Vincent Hurst agora olhava-a diretamente nos olhos. – Suficientemente poderosa para tomar para si… O mundo.

– Vincent, eu não…

– Tudo isto deve fazer sentido para você agora, minha querida. Nem eu mesmo poderia negar. Você é Elizabeth Knightingale.

– N-não, eu…

– Negar o destino seria hipocrisia. Aceite-o como tal. Você nasceu com o poder em mãos, não deixe-o escapar tão facilmente. – o tom de voz do superior tornava-se cada vez mais irreconhecível, como se fosse outra pessoa. Não falava mais como ele próprio. Falava como um dos homens de Aaric Hunter, ou um dos seguidores da Ordem da Santíssima Trindade. Ellie jamais sentira-se tão confusa antes.

– Eu sempre soube. – confessou, de repente.

Ellie arregalou os olhos castanho-claros, surpresa.

– O que disse?

– Tem sido um prazer prepará-la para seus sete anos de reinado, mas certamente não tão prazeroso quanto governar ao seu lado.

Ela abriu a boca para dizer algo, mas Hurst prosseguia sem qualquer hesitação:

– Desde o dia em que seu pai veio até mim… Eu mal pude acreditar na sorte… Estava bem ali, diante de meus olhos. A arma mais poderosa, a chave da maldita profecia. Colocaram-na em meu caminho para que eu a pudesse guiar, claro, claro… – um sorriso insano estampava o rosto de Vincent enquanto ele andava de um lado para o outro. – Mas eu não… Eu não poderia governar ao seu lado se ainda fosse a garotinha tola que costumava ser. Oh, não. Precisava prepará-la. Nada de misericórdia ou temores.

– O-o q…

– Para tornar-se fria e astuta é necessário sofrer algumas… Perdas.

Um inesperado flashback começou a ser reproduzido diante dos olhos da garota. Agora tudo, absolutamente tudo fazia sentido. As palavras encaixavam-se, as frases subliminares possuíam um sentido. Durante todo aquele tempo estivera em busca do assassino de seu pai, do culpado pelo acidente de James, do traidor que manchara o nome da Fraternidade.

E agora…

E agora tinha o maldito filho da mãe diante de seus olhos.

Estivera ali o tempo todo. Bem debaixo de seu nariz. Zombando dela como se sua trágica vida fosse uma bela comédia.

Por meses ela planejara sua vingança, imaginando o que faria quando tivesse o culpado em suas mãos. Por diversas vezes imaginara a forma como o faria pagar, imaginara a si mesma arrancando-lhe os olhos, forçando-o a confessar. Agora, ironicamente, não tivera de esforçar-se para fazê-lo confessar. Ele próprio o estava fazendo. O culpado. Vincent Hurst era o homem. O mesmo que outrora ela vira como o pai que perdera. O pai que ele mesmo assassinara sem qualquer consideração ou misericórdia.

– C-como… Pôde…? – havia um nó em sua garganta que a impedia de gritar ou manifestar-se histericamente.

– Ora, não me venha com lágrimas. – Hurst aproximou-se dela. – Acredita mesmo que teria se saído bem com seu pai para vendar seus olhos para a verdade? Que se tornaria uma verdadeira governante se ainda fosse submissa como costumava ser? Eu eliminei todas as pedras de seu caminho quando elas se tornaram desnecessárias. Eu a tornei o que é hoje. És uma criação minha, Lizzie. E minha recompensa será sete anos de glória e poder… Ao seu lado.

Lizzie…

O nome ecoou em sua cabeça por milhões de vezes, todas de uma só vez. Mas o que ele dissera ao final da frase?

Ao seu lado…

– A-ao… Ao me…

– Juntos nós tomaremos o poder, minha querida. Não haverá inimigo páreo se nos unirmos. – ele ergueu as mãos, agitando os braços. – Possuiremos o mundo!

Aquilo lhe doera mais que dez adagas perfurando-lhe o coração. Ouvira aquela promessa uma vez antes, as mesmas palavras. Palavras estas vindas do homem que ele – Vincent Hurst – arrancara de sua vida como se fosse um direito dele comandar-lhe seu destino.

– Tirou-me tudo o que mais amava… V-você… Você assassinou meu pai, meu marido, traiu seus irmãos, sua honra e palavra. Você… Oh, Inferno! – lágrimas de horror banhavam-lhe o rosto lívido, caíra em si quando percebera mais uma revelação. – Assassinou os pais de James… Você… Você… Maldito seja, Vincent…

– Não há vergonha alguma em assassinar sendo eu um assassino, tal como você e todos neste meio. Fiz o que era necessário para torná-la forte. – Hurst ergueu a cabeça em um gesto orgulhosamente superior. – Deve a mim tudo o que é.

– Tudo o que sou? – Eleonora teria rido se a dor que lhe percorria a alma não fosse tão insuportável. – O que eu sou, Vincent? Diga-me! Já não me resta mais nada. Absolutamente nada.

– É a dona deste mundo que se aproxima.

– Pois eu trocaria… Sete anos de reinado… Por sua cabeça decorando este galpão… – com os dentes cerrados, ela afirmou.

– Já vivenciamos drama o suficiente, não acha? Eu lhe proponho isto, minha bela governante. – aproximou-se ainda mais da garota. – Quero que nós dois tenhamos o maior papel nesta profecia. Quero que case-se comigo.

A vontade de atacar o homem tomara agora proporções incalculáveis até mesmo para a própria Ellie. Recuou um passo, balançando a cabeça, incrédula.

– Está completamente louco…

– Eu a farei feliz, Lizzie. Prometo-lhe que terá tudo o que seu coração desejar.

E, no entanto, o maior desejo dela agora era vê-lo morto.

Sentia-se incapaz de falar. O choque era ainda maior que seu desejo de vingança, que sua raiva.

De repente, foi como se todos aqueles sentimentos se fundissem em um só, tornando-se uma reação química fortíssima que agia ali, dentro de seu ser, saindo de sua alma até sua mente. Perdera o autocontrole antes mesmo que pudesse entender o que estava havendo. Sua figura frágil e adoravelmente bela ainda era mesma, mas quem comandava seu corpo não era mais seu próprio espírito.

Seu olhar tornou-se frio, sedento de sangue e morte, os olhos estreitos como os de um predador feroz. Ela respirava pesadamente, o coração batia-lhe violentamente, rápido demais.

Vincent Hurst afastou-se em um passo e abriu um sorriso ainda maior.

– Finalmente manifesta-se neste corpo, Elizabeth.

– O traidor morre pela boca como um peixe. – sua voz rouca e intensa proferiu as palavras com infinita seriedade. – Não me agrada o cheiro de um traidor.

– Eu sempre soube, oh, sim. Nenhum dos Sete manifestou-se nela porque… Ela é você. Afugentou até mesmo os sete lordes do Inferno, mas que grande poder leva consigo, querida.

– Cale-se. – ordenou em tom baixo. – Ousou enganar-me por todo esse tempo.

– Tudo o que fiz foi para que alcançasse sua glória o quanto antes.

– Mentiras! – alegou ela. – Tudo o que deseja é tomar-me o que é meu. É como eles. Como todos eles, seu maldito filho da mãe.

– Elizabeth, eu n…

– Mandei se calar! – a poderosíssima entidade começou a dar passos adiantes, encurralando sua presa. A pressão espiritual que emanava dela era forte o suficiente para preencher todo o ambiente, tornando o local tempestuoso e sombrio como o Inferno em si. – Em nome do Inferno, eu o amaldiçoo, desgraçado.

– Eu lhe peço para rever os…

– Esta foi sua última chance de manter-se calado. – esticou a mão na direção do homem. – Ure!

Um círculo de fogo cercou-o, brotando do chão, subindo com suas chamas altas.

Vincent soube que a situação fugira de controle quando Knightingale finalmente manifestara-se na garota. Aquilo era mais do que ele poderia controlar. O tiro parecia estar saindo pela culatra, e Hurst penitenciou-se mentalmente por seu ato falho.

– Não viverá para ver-me governar sobre a Terra. Tampouco o fará ao meu lado. Você é um nada. – Elizabeth cuspiu-lhe as palavras, deixando transbordar todo o seu ódio e desprezo. – Sequer posso chamá-lo de homem. Lutou tanto para manter este solo limpo, mas, oh, vejam só… Teremos de manchá-lo novamente. Com seusangue, traidor imundo!

– Elizabeth, não…

– Dirija-me a palavra mais uma vez e farei com que derretam-lhe a língua.

Hurst calou-se, engolindo a seco seu próprio temor. As chamas abaixaram-se ao redor dele. Ela virou-se para os portões do galpão, esticando a mão livre na direção deles.

– Aperire! – ordenou. E os portões foram abertos imediatamente. Virou-se novamente para seu interlocutor. – Em breve eles estarão chegando. Todos eles. E então eu irei expor o maldito traidor que você é.

Hurst fez menção de manifestar-se.

– Oh, não, não. – ela disse. – Mantenha-se calado enquanto lhe proporciono estes últimos minutos de vida. Será um prazer ver sua alma esvaindo-se de seu corpo, Vincent. Quase tão prazeroso quanto… Governar o mundo. – abriu um sorriso irônico.

A pressão espiritual dela tornava-se maior a cada segundo que se seguia. Vincent sentia sua cabeça pesar, chegando ao ponto de quase explodir. Quando a enxaqueca tornara-se totalmente insuportável, ele nada mais conseguia sentir. Fugiram-lhe todos os sentidos. E tudo o que conseguira memorizar fora sua queda ao chão, inconsciente, e os olhos demoníacos de Knightingale vidrados nos seus.

–—

Afastando suas pálpebras lentamente, sentiu uma luz fraca penetrar-lhe os olhos. A cabeça ainda doía, desta vez com mais força, como se uma pressão estivesse se projetando sobre seu corpo. Tentou movimentar-se. Os braços e pernas encontravam expostos, algo ao redor deles, algo gelado.

Abrindo os olhos por completo para a realidade, Vincent Hurst descobriu que ainda encontrava-se em vida. Esforçou-se para sentar-se no chão, apoiando-se em seus próprios joelhos. Havia correntes que o mantinham preso ao solo. À sua frente, sua velha cadeira trazida até o centro do galpão principal. Estava agora ocupada por uma figura distintamente intimidadora. Olhando ao redor, encontrou olhares curiosos. Surpresos. Frios. Familiares.

Seus irmãos da Fraternidade o assistiam, enojados.

Sentada diante dele, Eleonora colocou-se a discursar com seu tom de voz intenso e autoritário:

– Sabe por que está aqui, Vincent?

Uma gota de suor desceu fria pela testa, deslizando lentamente por seu rosto perturbado. Hurst foi imediatamente dominado pela revolta.

– O que pretende?

Ellie esboçou um sorriso maléfico pelo canto dos lábios róseos.

– Não está claro o suficiente para você, meu caro? Eu disse-lhe muitas vezes. Sou aquela que ouve e executa justiça. E este – esticou os braços para os lados, indicando todo o ambiente ao redor. – É o seu julgamento.

– Está completamente…

– Louca? Talvez eu esteja. Há muito tempo, Vincent. Há muito tempo. – lentamente, ela colocou-se em pé, posando diante dele como uma verdadeira soberana. – Eu pouparei meu tempo. Seremos rápidos com isto. Joshua, por favor. – chamou um dos assassinos.

Quando Joshua Wilder aproximou-se dela, Vincent pôde ver que ele trazia consigo um enorme facão reluzente que imediatamente causou nele um calafrio.

– O-que está faz…

– Cale-se! – esbravejou a jovem. Cochichou algo ao ouvido de Wilder e ele avançou até Hurst carregando um olhar apático consigo.

Colocando-se perante o homem ajoelhado, aquele que fora seu superior por tantos e tantos anos, Joshua Wilder empunhou o facão com mais força. Hurst ergueu o rosto para fitá-lo.

– Joshua… – Vincent Hurst deixou o nome dele escapar em um suspiro, algo próximo de um pedido de misericórdia, mas sabia que seria em vão.

– Assassinou James. – declarou com os dentes cerrados. – Traiu a todos nós. Manchou nossa honra com suas mentiras, com seu egoísmo e falsas promessas. É um miserável.

– Joshua, eu n…

Wilder cuspiu-lhe no rosto, desferindo um chute em seu queixo. O som do impacto ecoou. Vincent Hurst jogou a cabeça para trás. Quando tornou a erguê-la, havia uma fina linha escarlate escorrendo de seu nariz.

– Fui designado para cumprir vingança em memória de James. E não sabe o imenso prazer que me dá vê-lo sofrer de tal forma.

Vincent mudou seu olhar de direção, observando Eleonora que encontrava-se em pé atrás de Wilder.

– Foi por você que fiz o que fiz…

– Tirou-me minha vida. – ela avançou alguns passos, colocando-se ao lado de Joshua, diante de Hurst. – Agora tirarei a sua.

– Não ous…

– Vamos logo com isto, por favor. Não tenho estômago para ouvir este verme falar nenhum segundo a mais. – ela deu dois tapinhas no ombro de Joshua e recuou alguns passos para contemplar justiça com seus próprios olhos.

Joshua Wilder ergueu o facão com suas duas mãos, mirando muito bem o ponto que tencionava acertar de uma só vez. Todos estavam presentes. Michael Graber mantinha-se cabisbaixo diante da situação. Bryan Carter permanecia calado, um olhar cruel em seus olhos estreitos, muito atentos ao que estava ocorrendo. Dominic Ryder utilizava toda a sua apatia para se manter firme.

Vincent começou a agitar-se, debatendo-se contra si mesmo. As correntes apertavam-lhe o sangue.

– Não! Por favor, não! Não faça isto! Tudo o que fiz foi para nosso futuro, para o bem de nossa organização!

Wilder olhou-o profundamente nos olhos marejados e os seus próprios brilharam entre raiva e sadismo. De seus lábios, uma sentença final fora proferida como um decreto:

– Vejo-te no Inferno, maldito traidor!

Desceu as mãos com o facão em extrema velocidade, passando-o em lateral pelo pescoço de Vincent. Tudo ocorrera em menos de um segundo. Em um momento, Hurst tentara gritar, fugir ou até mesmo fazer o tempo parar, mas era impossível. No instante seguinte, sua cabeça decepada rolava pelo chão do galpão, manchando-o de sangue.

Ellie engoliu a própria respiração a seco. Uma batida de seu coração falhou e ela sentiu-se tentada a vomitar, mas não o fez, controlando-se com firmeza.

O silêncio prevaleceu.

Joshua Wilder respirava ofegantemente, o facão pendendo em suas mãos trêmulas, o metal reluzente banhado em sangue…

Caminhando de volta à cadeira, assentando-se em um gesto indiferente e elegante, Ellie inclinou a cabeça diante da cena e citou um versículo conhecido que parecia ter se cumprido bem ali, diante de seus olhos:

– “O vingador da vítima matará o assassino. Quando o encontrar, o matará”.

Ainda que exteriormente se demonstrasse firme e confiante, seu interior gritava por socorro. Já não havia mais para onde correr. A hora havia chegado. Agora, mais do que nunca, teria de encarar seu destino e lutar por justiça.

Afinal, fora este o seu objetivo desde o dia em que aceitara fazer parte daquela fraternidade.

Por medo. Por raiva. Por incerteza, rebeldia e desespero.

Por justiça.

–—

* Ure! - Queime!

* Aperire! - Abram-se!

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» Segundo Ciclo - Capítulo XXIX - Os Justos Serão Exaltados

Chegando à Catedral Nacional, Christian Madden deparou-se imediatamente com seu mentor, padre Abdon. O homem levava consigo a expressão mais angustiada que o exorcista já vira em toda a sua vida.

– Mas o que há? – Madden parou no meio do corredor entre os bancos da igreja.

– O Vaticano contatou-me. – declarou o padre. – Estão a par de seus feitos recentemente.

Christian arregalou os olhos e, em seguida, deixou escapar um suspiro, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo.

– Padre, os exorcismos e…

– Não pediu-lhes a permissão oficial para executá-los, filho. Uma tremenda falta, você sabe.

O caçador de demônios esboçou um riso baixo, incrédulo.

– E o que queriam que eu fizesse? Que esperasse pela decisão deles enquanto pessoas morriam diante de meus olhos? Isto é totalmente contra minha personalidade, padre.

– Sei disso. – o velho consentiu com um aceno breve. – Estão tomando-o como inimigo, Christian.

A afirmação deixara-o ainda mais surpreso. O exorcista julgou ter ouvido muito mal.

– Inimigo? – disse.

– Estou tentando convencê-los do contrário, mas sabem que teve a oportunidade de livrar-se de nosso problema. – recordou-se padre Abdon. – Mas você deixou-a escapar. Como fez com Annora Grant. Deixou-a ir.

– Padre, eu n…

– Estou de partida. – anunciou. – Irei à Roma para uma reunião de extrema urgência. Tentarei o que estiver ao meu alcance para que não o prejudiquem, mas não posso prometer-lhe nada.

Também não havia mais nada a ser dito. Christian Madden exalou mais um suspiro, derrotado. As coisas pareciam estar tomando a direção contrária. Sentia-se mais frustrado do que antes, conforme os dias se passavam.

Aproximou-se do padre, pousando uma mão sobre seu ombro direito.

– Obrigado, padre.

– É o garotinho que vi crescer, Christian. Não faço mais que minha obrigação. – Madden pôde ver os olhos marejados do homem que o criara olharem com infinita compaixão para ele. – Preciso que mantenha-se aqui. Parece que a irmã de Braxton está empenhando-se em tomar o caminho certo. Ela precisa de você. Assim como muitos outros que também estão envolvidos nisso tudo.

Christian abriu um sorriso sincero. Lembrou-se então da estranha sensação de familiaridade que o invadia toda vez que Alena Braxton encontrava-se por perto, incluindo a vez em que tiveram uma aproximação maior, o que causara nele uma comoção assustadoramente imensa.

Quando abriu os lábios para perguntar ao padre a sua opinião, porém, o homem fora mais rápido:

– Vemo-nos em breve, filho. Ao menos, é o que espero.

Só então Madden se deu conta de que padre Abdon carregava consigo duas maletas de couro negro.

Desistindo de fazer-lhe perguntas para que pudesse colocar um possível fim em suas dúvidas recentes, Christian abriu os braços e sorriu pelo canto dos lábios. Padre Abdon colocou as malas no chão e deu-lhe um abraço paternal que também trouxe lágrimas de emoção aos olhos do mais novo.

Afastaram-se em seguida, e o homem olhou-o nos olhos com uma súbita severidade.

– Não esqueça-se de quem você é. Jamais.

Soara como um apelo. Christian Madden prometeu a si mesmo que cumpriria com o que o padre lhe pedira. Padre Abdon acrescentou rapidamente:

– A guerra está mais próxima do que imaginamos. Tens de estar preparado para o que está por vir. – firmou seu semblante sério. – Sei que quando a hora chegar fará o que for certo aos olhos de nosso Senhor. E independente de onde estiver, estarei orgulhoso de você, filho.

Christian alargou seu sorriso, grato pelo apoio que recebera daquele homem durante toda a sua vida.

Padre Abdon ajeitou seu chapéu e agarrou suas malas, retirando-se dali em passos firmes. Suas palavras ainda martelavam na mente de Christian, deixando-o pensativo a respeito da conversa que tiveram ali.

Virando-se para o altar onde logo acima havia uma imagem de Jesus Cristo crucificado, Madden aproximou-se, colocando-se de joelhos lentamente. Cerrou os olhos, concentrando-se em suas preces seguintes.

– Meu bom protetor, sei que já faz algum tempo… Tenho me sentido perdido, tão perdido… – apertou os olhos com mais força, passando uma das mãos pelo rosto frio. – Temo não estar preparado para o que está por vir…

Houve uma agitação quase imperceptível ao redor do exorcista. Uma luz fraca desceu até ele, tornando-se mais forte conforme aproximava-se de seu corpo ajoelhado diante do altar. Ele não precisou abrir os olhos para confirmar a presença alheia que chegara ao local, atendendo às suas preces.

– Gabriel. – disse-lhe em tom muito baixo.

– Sei que carrega angústia em seu coração, Christian. – a voz era suave, confortadora e melodiosa. Soava como uma bela canção de ninar, trazendo paz imediata aos pensamentos de Madden. – Tal como sei que irá sair-se bem em sua missão principal.

– Esperam muito de mim.

– Porque é você o escolhido, Christian. É você aquele que liderará o exército da vitória. Aquele que vencerá o mal que tenciona cair sobre a Terra por sete turbulentos anos.

– Sei que não há forma de impedir a chegada do fim dos tempos, mas temo não conseguir cumprir com o que me foi imposto, eu… Eu não sei por onde começar.

– Pode começar preparando a si mesmo. Purificando sua mente e coração. Assim estará completamente pronto para a guerra.

– Guerra… É o que todos dizem o tempo todo. Parece que é, de fato, o desejo deles. Que haja guerra.

– A guerra está inclusa na profecia, Christian. Lembre-se que depois dela haverá paz, a inocência será restaurada.

– E quantos mais terão de morrer até que a paz venha? – indignou-se o caçador de demônios.

– Isto ocorrerá conforme a vontade do Senhor. Não cabe a nós decidir.

Madden permitiu-se suspirar, suavizando o cerrar de seus olhos. Havia turbulência em seu interior, sua mente estava caótica. Algo ainda parecia cutucá-lo, atiçando sua curiosidade e receio. Algo em especial.

– Adam desistiu de viver por alguma razão. Sei que está a par disto. – sem abrir os olhos, Christian seguia com a questão. – O que houve, Gabriel? Por que Adam se matou?

– Adam foi corrompido, Christian. – disse-lhe a voz. – E em breve muitos outros também serão. O Primeiro Selo já foi rompido. A Peste avizinha-se.

– A Peste?

– O primeiro Cavaleiro do Apocalipse já encontra-se entre nós. Mas o lado vitorioso também colocou-se a agir.

– O que está dizendo?

– Também há enviados de Deus em nosso meio

Madden esperava que o arcanjo referisse-se a ele em seguida, mas a afirmação não veio. Gabriel prosseguiu com sua voz harmoniosa:

– Lembra-se da garotinha? Ela previu a morte de Adam. É uma peça muito importante para a profecia, Christian. – a voz tornou-se severa e autoritária. – Precisa encontrá-la. Não deixe que a corrompam. Não permita que isto aconteça.

A percepção invadiu-o de imediato, e Madden não pôde evitar abrir os olhos. Olhou ao redor, ainda que milésimos antes – subitamente – a presença celestial tivesse se retirado dali. O exorcista encontrava-se sozinho novamente. Gabriel se fora. E o pior era ter de encarar o fato de que não conseguira obter respostas. Prosseguia o dilema, seu futuro incerto. A ordem dada pelo anjo soara súbita. Christian sabia desde o início que a garotinha tinha algo de especial.

É uma peça muito importante para a profecia, Christian… Precisa encontrá-la…

Suspirando novamente, Christian colocou-se em pé e ajeitou suas vestes negras.

Decerto havia algo a ser feito.

Procurar por respostas concretas, ao menos.

–—

Bryan Carter adiantou-se em adentrar a sala de seu superior em prontidão, havia algo a ser dito, algo a ser esclarecido. Colocou-se para dentro do cômodo em passos brutalmente firmes, sendo direto:

– Vincent, gostaria de… – freou sua fala. Vincent Hurst não encontrava-se em sua sala. Assentada na cadeira do summus da Sétima Divisão, Ellie levantou os olhos para o assassino.

– Vincent precisou sair. Está procurando alguma forma de evitar uma guerra entre todas as divisões. Há algo em que eu possa ajudar, Sr. Carter?

Bufando, o grotesco homem lançou a ela um olhar furioso.

– O que diabos está fazendo nesta cadeira?

Ela levantou-se lentamente, fechando as gavetas da mesa à sua frente.

– Ainda não desisti de minhas investigações, preciso de provas para vingar a morte daqueles que foram traídos em nosso meio.

Carter emitiu um riso sarcástico.

– Não haja como se pudesse enganar-me.

– Pois eu não sei do que está falando. – ela pôs-se muito séria, cruzando os braços em frente ao peito.

– Quer tomar o posto mais alto da divisão. Deseja estar no poder.

– Já tenho meu lugar no mundo, Sr. Carter.

– Ora, não seja hipócrita! – exclamou ele. – Eu posso ver nos seus olhos. Tem a mesma expressão que estampava o rosto dela!

– Dela? – Ellie franziu o cenho, um tanto confusa.

– Desde que colocou os pés neste lugar, acha mesmo que não pude ver o que esconde-se por detrás desse rosto inocente? Eu posso senti-la há quilômetros de distância.

A garota meneou a cabeça negativamente para os lados e tornou a erguer os olhos para ele.

– Não consigo compreender seu raciocínio, senhor.

– Elizabeth Knightingale. – Bryan pronunciou o nome de maior peso naquele meio. – Há algo em você… O mesmo que havia na maldita mulher…

– Como pode afirmar tal coisa com tanta certeza?

– Eu não posso. É meu instinto quem fala por mim. – de repente, ele suspirou, derrotado. – Não sei por que permitiu que a trouxessem para este meio, mas acredito que haja uma pequena possibilidade de que ainda possa retirar-se, escapando disto tudo.

– O-o quê? – Ellie indagou, completamente entregue à confusão que brotara em sua mente desde o momento em que o portador da terrível cicatriz entrara na sala.

– Dizem que tem o coração puro. Prove-me que estive enganado a seu respeito o tempo todo. Vá embora, fuja do maldito destino que querem lhe impor. – Bryan Carter utilizava agora um tom de voz nunca ouvido pela garota antes. Não vindo dele. – Não deixem que a destruam.

– Por que isto agora?

– Porque da mesma forma que vejo Elizabeth em você, uma assassina egoísta e cruel, também vejo uma criança assustada, perdida em um lugar ao qual não pertence. – ele afirmou. E era possível ver raras lágrimas ameaçando escorrer por sua face vincada. – E esta criança faz com que lembre-me de minha pequena Celine. A filha que perdi, a garotinha que não pude salvar na noite do assalto.

Surpresa pelas palavras nunca ouvidas da parte do homem que outrora causava nela repulsa e pena, Eleonora adiantou-se para ele, aproximando-se em passos cautelosos.

– É um membro da Fraternidade. Por que diz que estarão me corrompendo se eu ficar?

– É o que acontece a todos que entram para este mundo. Mas posso ver que seu lugar não é aqui, não ao redor de assassinos e mercenários. A princesinha está no lugar errado.

Ele rapidamente se recompôs, impedindo que fosse possível notar sua tristeza mesclada ao ódio que sentia de praticamente tudo e todos.

– Não posso ir embora, Sr. Carter. – explicou. – Este pode não ser o meu lugar, mas também não há outro para onde eu possa ir. Assim como não há ninguém a quem eu possa recorrer.

Carter fez menção de dizer algo, mas Ellie continuou:

– Nós dois perdemos pessoas que amávamos. Estamos atrás do mesmo objetivo. Vingança. – aproximou-se ainda mais dele, olhando-o nos olhos. – Se me permitir ter seu apoio, então eu lhe prometo que terá a cabeça do assassino de sua esposa e filha aos seus pés.

Bryan não deixou de fitar a garota, abanando a cabeça.

– O que está dizendo é…

– Eu sou aquela que ouve e executa justiça, Sr. Carter. Se é vingança o que deseja, ao meu lado é isto o que terá. – tomou-lhe ambas as mãos com compaixão, sem deixar de observar o dedo ausente em uma de suas mãos. – Lute ao meu lado. Eu preciso de pessoas como você. Preciso de pessoas justas. Peço-lhe que faça isto por aqueles que perdeu. E eu cumprirei com minha palavra em memória aos que perdi.

Bryan Carter fitou-a cautelosamente, analisando a sinceridade que brotava de seus brilhantes olhos castanho-claros.

– O que está propondo-me? – quis saber.

– Uma trégua em nossas desavenças. – respondeu ela. – E uma aliança em nome de nossos propósitos semelhantes.

Estreitando os próprios olhos, sem deixar de fitá-la intensamente decidido a não deixar escapar qualquer sinal expressivo, Carter disse-lhe:

– Se arrancarem-me a vida durante o que está por vir… Faça-me justiça por minha esposa e por minha filha, por favor, eu lhe peço. – apertou as mãos dela entre as suas em um gesto de cumplicidade em nome da trégua que nascia ali, naquele momento. Ellie consentiu com a cabeça. – Lutarei em seu nome, futura governante. Tem minha palavra.

Abrindo um sorriso vitorioso, Ellie acrescentou:

– Por justiça. Eu prometo-lhe.

Bryan Carter assentiu em um gesto breve com a cabeça.

Em sua mente, Ellie pensou consigo: Prometo-lhe que farei justiça, tal como prometo proteger todo aquele que busca por ela.

Em seguida, uma já muito conhecida frase veio-lhe à mente:

Os humilhados serão exaltados.

Quando seus dias de glória chegassem finalmente, entretanto, ela decidira que mudaria o que estava escrito. As palavras proféticas seriam outras, o mundo seria outro.

E neste mundo, os justos seriam exaltados.

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» Segundo Ciclo - Capítulo XXVIII - Sem Saída

– O próximo ataque deve ser muito bem planejado. – observou Aaric Hunter. – Sabemos do que a Impostora é capaz.

Estava sentado em sua cadeira confortável por detrás da mesa repleta de papéis nos quais haviam escrituras e desenhos interligados com sua intenção de atacar o inimigo que tinha em comum com a mulher à sua frente. Dahlia Mason.

– Julguei que fosse seguro de si o suficiente para subestimá-la. – ela ousou dizer.

– A garota é ainda uma criança tola. – Hunter abanou a cabeça. – Mas não devemos nos esquecer que trata-se de uma assassina. Foi treinada para defender-se.

– Defender a si mesma, no entanto, não é um trabalho fácil. – Dahlia falava por experiência. – Costumava ser fácil para ela esconder-se atrás do marido mercenário, mas não há mais quem possa protegê-la de seu destino.

– Agora é você quem a subestima. – ele analisou.

– Com razões um pouco óbvias. – a ruiva sorriu presunçosamente, os lábios mais vermelhos do que ele costumava se lembrar pareciam convidativos demais. Aaric Hunter estudou discretamente a postura utilizada por ela naquele momento. – Se estamos unidos em um só propósito, Eleonora não será adversária para nós.

– Fala com fé.

– Confio no destino, Sr. Hunter. E o seu destino é ser o governante, não? Quero que tenha-me como aliada quando seus dias de glória alcançarem-no.

– Porque lhe convém, claro. – Hunter ironizou-a.

– Porque recuso-me a ter como governante uma menina arrogante e inexperiente. – Dahlia respondeu-o, seriamente. O sorriso desapareceu, de repente. Falava firmemente.

Aaric abaixou os olhos, pensativo. Soltou um suspiro alto o bastante para atiçar a curiosidade da mulher.

– Algo o perturba? – indagou.

Quando o líder dos Ceifeiros do Equilíbrio encarou-a novamente, havia um misto de ansiedade e raiva em sua expressão. Seus olhos estavam mais opacos do que de costume, mas os sentimentos que escondiam-se por detrás deles eram evidentes.

– A maldita garota tirou-me tudo o que tinha. Assassinou cruelmente minha esposa e filha. – seu tom era trêmulo e – ao mesmo tempo – severo e decidido. – Quero-a morta, Dahlia. Quero arrancar-lhe os ossos do corpo um a um com minhas próprias mãos.

A mulher de cabelos avermelhados inclinou o rosto para cima, fitando-o nos olhos. Abusou de sua seriedade, ao dizer:

– Nós a eliminaremos, senhor. E quando estiver feito, terá seu posto em mãos. O posto que lhe pertence por direito. Sete anos de reinado.

Ele balançou a cabeça positivamente, sem deixar de olhá-la. Havia uma ridícula sensação de cumplicidade entre ambos. Aaric sabia que a mulher era de confiança. Demonstrara-se leal e determinada. Precisava de pessoas assim ao seu lado. Precisava de vencedores. Como ele.

Estava prestes a dizer-lhe algo, mas a chegada de uma terceira pessoa fez com que regressasse à realidade.

– Disseram-me que poderia lhe falar. – Declan Donovan surgiu na sala principal do que mais parecia um templo. Tratava-se do local usado pelos Ceifeiros do Equilíbrio como sede. Aproximara-se do líder do grupo, subindo os dois degraus que separavam-no do solo inferior, algo construído especialmente por ele, demonstrando sua superioridade.

Colocando-se diante de Hunter e daquela que estava com ele, Declan abriu um sorriso malicioso, anunciando:

– Sei que planeja um ataque contra Ellie.

– As notícias realmente voam aos quatro ventos, não? – Aaric sequer levantou-se da cadeira, evitando olhar para o rapaz. – Diga logo o que quer.

– Pensei que parecesse óbvio o suficiente. É claro que quero estar presente quando o ataque for executado.

– Bobagem. – o homem retrucou. – Seu superior quer que você se una à sua irmãzinha, planejam algo paralelo. Não pode surgir de tal forma, deixando claro que é um inimigo oficial.

Donovan franziu as sobrancelhas.

– Aldous realmente quer que Ellie me aceite como companheiro no que ela acredita que acontecerá no dia final, mas isto não quer dizer que eu não possa assistir aos ataques que fará contra ela.

Dahlia emitiu uma expressão enojada que não escapou dos olhos de Declan.

– Alguma oposição? – ele perguntou, direcionando-se a ela.

– Sua divisão acredita que você é a reencarnação do líder deles. E que sua irmã é Elizabeth Knightingale. Sabe que tratavam-se de dois amantes, não? – esclareceu a ruiva, mas ela também não olhava-o nos olhos.

– Pois eu não dou a mínima. – Declan deu de ombros. – Desde que consiga meu bilhete de ida para os anos de vitória.

– É o que todos querem. – comentou Hunter, subitamente. – Glória, poder, sete anos de reinado. Tantos farsantes em meu caminho… Não quero ter de eliminá-lo tão cedo, Donovan. Então… Não seja imprudente com suas palavras, sim?

Lançando um olhar insípido ao mais novo, Aaric viu-o estremecer e sentiu-se tentado a debochar dele. Era apenas um garoto, mas sua postura era terrivelmente petulante.

Pigarreando, o homem colocou-se de pé:

– Tenho instruções a passar aos meus homens. Peço que ambos fiquem, pois temos muito a decidir. – afastando-se dali, Aaric Hunter abandonou o local deixando um ambiente pesado para trás.

Dahlia também fez menção de levantar-se, mas quando o fez, Declan segurou-a pelos ombros, fitando-a diretamente nos olhos.

– Tem feito sua parte no combinado ou devo refrescar sua bela cabecinha, querida?

– Solte-me. – ordenou rudemente.

– Nem mesmo tente passar-me para trás. Não sou estúpido, não hesitarei em contar ao Hunter o que sei.

– Não pode provar nada.

– Se soubesse o quão influente posso ser apenas com palavras, não seria tão audaciosa.

Sacudindo os ombros bruscamente, Dahlia libertou-se das mãos que a aprisionavam. Ergueu o rosto, olhando-o profundamente. Não havia sinal de medo em seus olhos verdes-esmeraldas, mas havia uma ponta de hesitação em seu interior. Algo que a impedia de livrar-se do jovem em questão de segundos.

– Não tenha-me como um inimigo, Dahlia. – Declan sorriu pelo canto dos lábios. – Não é o que almejo, de forma alguma. Pelo contrário. – aproximou-se ainda mais, tornando a tocar-lhe nos ombros. Em seguida, deslizando as mãos pelos braços dela, agiu impulsivamente, aproximando-se de sua pele macia e pálida da qual exalava um perfume familiar aos seus sentidos.

Sabia que algo nela fazia com que se lembrasse de alguém. E sabia disto desde a primeira vez em que a vira.

Kat…

Afundando-se nos cabelos ruivos da mulher, Declan sussurrou-lhe ao ouvido:

– Se nos unirmos… Seremos nós dois que governaremos sobre toda a Terra… – desceu com as mãos até alcançar a cintura dela, atraindo-a para si. – É isso o que você quer, não é? Estar no poder. Eu posso lhe proporcionar tudo isto se fizer a sua parte.

Tornando a olhar para ele, Dahlia sequer objetou enquanto ele a tocava. Aproximou-se do rosto dele com seus lábios entreabertos e as pupilas dilatadas. Estavam próximos demais, Declan preparou-se para o que viria em seguir, mas subitamente Dahlia afastou-se dele, quebrando o contato físico.

– Mal pode cuidar de si mesmo, quiçá governar sobre a Terra, garoto. – disse-lhe rispidamente. – Trate de manter a boca fechada ou serei eu quem destruirá sua vida. Não é o único com o dom da persuasão aqui.

Incrédulo, Declan arregalou os olhos e emitiu um riso breve. Ia dizer algo, mas Dahlia prosseguiu:

– Não sou uma criança boba como sua irmã. Não pode me manipular. – declarou. – Mantenha-se em seu lugar se não quiser mais problemas.

Logo em seguida, retirou-se dali passando por ele com ares de quem acabara de vencer uma batalha. Mas não a guerra.

–—

Sentado ao redor dos membros da Sétima Divisão, Thomas Montgomery sentia-se como um peixe fora d’água. A decisão que tomara fora totalmente radical, embora seu coração afirmasse veemente que aquele era o caminho a se seguir. A tensão desapareceu quanto ele notou o sorriso conciliador que estampava o rosto angelical e doce da garota que assentava-se ao lado de Vincent Hurst. O hematoma escuro que moldava os traços de seu nariz fino e delicado já não parecia tão evidente quanto antes, mas havia sombras logo abaixo de seus olhos castanho-claros, deixando claro que suas noites não haviam sido boas recentemente.

Sua presença era divinamente pacífica. Fazia com que se sentisse próximo a uma figura celestial, algo fora daquele mundo, o que era irônico, pois todas as teorias apontavam-na como mãe das imundícies e promiscuidades. Fez com que Thomas se perguntasse se as aparências realmente poderiam enganar. Estava ali para ter certeza disto.

– A pedido de nossa futura governante, sua presença será aceita em nossa divisão. – decretou Hurst. – Estou levando em consideração seus anos de experiência e lealdade à Fraternidade.

– Sou grato por isso. – Montgomery acenou com a cabeça.

– Disse que Crane tenciona também eliminar Ellie. O que tem a nos dizer a este respeito?

Thomas colocou-se a pensar, tentando explicar da melhor forma possível quais eram as intenções de sua antiga divisão. Recordando-se da forma decididamente cruel com a qual o líder da Quarta Divisão anunciara que assassinaria a garota, Montgomery sentiu-se trêmulo e tenso novamente.

Ellie notou o nervosismo do velho, sentindo-se obrigada a acalmá-lo. Precisava daquelas informações a qualquer custo, precisava preparar-se para todos os ataques possíveis.

– Não há nada a temer, senhor. Está em casa, e aqui somos todos seus irmãos. Ninguém lhe ameaçará enquanto eu estiver presente. – disse, autoritária. – Agora, diga-me. Quais são as intenções de seu antigo líder?

– Sei que é boa, doce criança. – ele falou em tom baixo. – Tem o coração repleto de misericórdia e esperança. Nos salvará da fome e da guerra quando o dia chegar.

Ignorando-o, ao perceber que não havia coerência nas palavras do sujeito, ela insistiu:

– Por favor, diga-me.

– Acreditam que o Primeiro Selo tenha sido rompido há dezoito anos. – finalmente ele levantou o rosto para fitá-la. – Na noite de seu nascimento. O sexto dia do sexto mês do ano de mil novecentos e noventa e seis. Neve e tempestade em uma noite de verão. Um sinal dos Céus.

Ouvira aquilo um milhão de vezes, e, ainda assim, continuava a se surpreender com a profecia toda vez que alguém lhe dizia o que ocorrera na noite em que viera ao mundo.

A voz de Thomas Montgomery soou novamente, profética como a de Vincent toda vez que ele lhe explicava algo relacionado à profecia.

– “Filha da neve que congelará seu sangue e da chuva que arrastará seu corpo ao Inferno”. Esta é a teoria aceita inicialmente. Refere-se ao poder de sua alma, futura governante.

O poder de minha alma. Repetiu a frase mentalmente. Logo lembrou-se da noite em que Dominic Ryder ensinara-a a controlar o que manifestava-se em seu interior em circunstâncias improváveis. No entanto, no que dizia respeito a tal profecia não havia nenhuma frase fatídica relacionada a atear fogo em pessoas ou objetos como uma forma de defesa. Era um dilema. Mais um para sua coleção.

– Parece-me mais algo que refere-se à uma bruxa do tempo. – afirmou. Sabia o que estava dizendo. Marina contara-lhe muito a respeito de bruxas, inclusive as que conseguiam controlar o clima com imensa facilidade. – Essa teoria não me soa válida.

– Talvez porque ainda não conheça a grandeza de sua alma. – o velho atirador advertiu. – Já alguma vez perguntou-se o por que de não ter mais as marcas de seu batismo de fogo?

A questão pegara-a de surpresa, deixando-a atônita. Era um fato. Não havia marcas em suas mãos desde o dia em que fora oficialmente aceita na Fraternidade. O que a surpreendera ainda mais fora o fato de deixar tantos detalhes passarem despercebidos daquela forma. Estava sendo terrivelmente imprudente. Precisava manter-se atenta a absolutamente tudo. Aprendera aquela lição naquele exato momento.

Pigarreou, olhando discretamente para as próprias mãos por debaixo da mesa de madeira.

– Uma alma forjada no fogo em nome dos Sete não se queima jamais. – ele disse, muito sério. – Sobre a frase que citei, é uma referência a seu espírito grandioso. É como o tempo. Não se pode controlá-lo. Nem mesmo bruxas podem fazê-lo, isso é mito. Tampouco pessoas comuns.

Como o tempo… Não se pode controlá-lo…

Algo que Dominic dissera-lhe veio à sua mente logo depois.

Como vê, tudo pode ser controlado.

Ellie já não conseguia decidir-se no que acreditar. Todas aquelas contradições pareciam tencionar roubar-lhe a sanidade de maneira brusca. A vida não estava sendo misericordiosa. E então pensou:

Também não sou.

E estava certa de que não era mais tão pura como Thomas Montgomery acreditava.

Vincent Hurst veio em seu socorro:

– Bem, poderia ser direto?

Thomas Montgomery, de fato, foi:

– Crane quer matá-la. Acredita que seja uma figura perigosa, tal como a Dama da Morte fora.

Com a voz envolta em determinação, Vincent virou-se para o homem e decretou:

– Pois que venham todos eles. – colocou-se em pé. Ellie assistiu-o fazer outro anúncio súbito. – Se é guerra o que querem, é isto o que terão.

–—

As lembranças ainda eram processadas por sua mente, ora de forma extremamente rápida, ora lentamente, deixando-o aturdido. Em seu subconsciente, em algum lugar, estavam as lembranças trancafiadas há algum tempo. James recordava-se agora com clareza da noite de seu acidente.

Conseguia recordar-se de seus feitos naquela data, das vidas que arrancara, da forma como arrastara Ellie consigo para libertar-se de suas frustrações, de como ela estava totalmente entregue em seus braços, da promessa que fizera a ela momentos antes da manhã chegar…

Possuiremos o mundo.

Recordara-se também com convicção dos fatos, seu cérebro reproduzindo as imagens com infinita nitidez. Veio à sua mente lembranças de Ellie, e ele lembrou-se de como ela estava naquela noite. De sua beleza e fragilidade. Esta lembrança fora a última que viera-lhe à mente antes de um estrondoso som invadir-lhe os ouvidos.

Despertou, assustado. A plena escuridão envolvia-o como um manto sufocante. Procurou pelo isqueiro em seus bolsos, encontrando-o rapidamente. Quando o acendeu, deparou-se com Willow acordada ao seu lado, os olhos arregalados.

– O que houve?

– Uma turbulência, acredito eu. – supôs a menina.

James suspirou, ainda confuso.

– Tem falado enquanto dormia. – ela comentou.

– Há quanto tempo está desperta?

– Alguns minutos. – encolheu os ombros. – Está demorando.

– Chegaremos em breve, não se preocupe.

Willow abaixou o olhar, muito pensativa. O som tornou a soar, desta vez mais alto. Seguiu o mesmo tom ensurdecedor, sem cessar. Uma pressão forte parecia puxar o avião para baixo em incrível velocidade. A menina foi arrastada para o outro canto do caixote e James deixou o isqueiro cair acidentalmente de suas mãos.

– Mas o que diabos está havendo? – ele praguejou.

A pequena pôs-se a gritar, muito assustada. Cobria os ouvidos com as duas mãos, o desespero tomou James Braxton de forma arrebatadora. Sabia o que estava havendo.

A pressão que parecia vir de cima aumentou violentamente, agora arrastando-os para baixo. James pôde ouvir uma comoção à frente, na cabine do piloto. Mais gritos. O som do motor falhando. Seu desespero alcançou um nível nunca atingido antes. Começou a esmurrar as paredes do caixote, gritando para que alguém os ajudasse, mas era inútil.

Sentiu que aproximavam-se rapidamente do solo.

Havia muito pouco tempo.

Ele seguiu esmurrando o caixote, jogando todo o corpo conta a entrada até que ela se abriu. Correu para fora, puxando Willow consigo. O tempo corria, era difícil manter-se em pé, precisavam arrastar-se até a saída e ainda tentar abri-la. Não haveria chance de salvar-se.

Segundos mais tarde, os sons cessaram. Um instante de silêncio pareceu fatal. Em seguida, a colisão do avião contra o solo causou um estouro tão alto, que os animais que escondiam-se aos arredores correram, assustados. Havia fumaça, e esta mesclava-se com um odor a mais.

O cheiro da morte.

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» Segundo Ciclo - Capítulo XXVII - De Volta ao Início

Willow surpreendera-se quando James lhe afirmara naquela mesma tarde que sabia exatamente como partir. Sem fazer perguntas, deixou-se levar acompanhada dele até um lado um tanto obscuro da pequena cidade. Lá, Braxton agira firmemente, muito confiante, pedindo a um grupo de homens mal-encarados que encontravam-se à beira do rio para que chamassem seu líder.

Hesitante, o – aparentemente – mais velho entre eles adentrou um pequeno barco ali perto, regressando acompanhado de um homem calvo e corpulento que fedia a peixe e tabaco. O sujeito aproximara-se de ambos, um olhar frio e duro em seu rosto grotesco. Arrancando um charuto da boca, ele logo inquiriu:

– O que quer?

James Braxton deu um passo adiante, colocando-se frente a frente com o sujeito.

– Procuro sair da cidade sem deixar rastros pelo caminho. – explicou. – Disseram-me que sabe como fazê-lo muito bem.

O homem estreitou os olhos, jogando o charuto no rio.

– Certamente. – disse-lhe. – Qual é seu destino?

– América. – James respondeu. – Sei que pode nos levar sem necessidades de documentos ou passagens. No entanto… – olhou para os barcos presos logo atrás do grupo. – Segundo me parece, seu meio de transporte não é rápido o bastante.

– Tem pressa? – o indivíduo indagou, debochando dele. – Em quanto tempo precisa estar lá?

– Um dia é meu prazo. Nada mais. Estou certo de que pode me conseguir um modo mais rápido de chegar até meu destino.

– Tenho meus contatos. Dependendo do cliente, meu amigo, eu lhe diria que seria possível lhe conseguir um avião. Segunda classe, se não se importa. – ele ironizou. – Mas, claro, meu trabalho tem um… Preço a ser pago. E, acredite, não costuma ser muito barato.

Braxton colocou as mãos nos bolsos do casaco, ignorando o tom intimidador impregnado pelo homem. Sem qualquer sinal de hesitação, inclinou o rosto para cima, fitando-o diretamente nos olhos.

– Não tenho dinheiro.

– Mesmo? – ele admirou-se. – Pois então devo lamentar por seus planos. Não poderei ajudá-lo.

– Oh, sim, você irá. – em um gesto discreto, porém intrépido, James mostrou-lhe o que trazia consigo no interior do casaco. Um objeto preso a seu corpo fez com que o homem e seus companheiros recuassem um passo, arregalando os olhos. Willow Hope surpreendera-se ainda mais, perplexa em relação ao que presenciava no momento. – Ou farei com que voem pelos ares em menos de um segundo.

O robusto homem tornou a se adiantar para ele, abanando as mãos.

– Não faria isto. – alegou. – Estaria matando a criança e a você.

– Se não chegarmos ao destino planejado dentro de um dia, terminaremos mortos de qualquer maneira. Aqui não há ninguém que tenha algo a perder, creia no que digo.

Os sujeitos encaravam-se, trocando olhares de puro horror. Dando mais um passo para trás, o homem arrancou do bolso da calça rasgada e manchada uma pistola, colocando Braxton em sua mira.

James abriu um sorriso ardiloso, sem demonstrar medo diante do adversário maior.

– Estaria acelerando o processo se apertasse o gatilho. – esclareceu. – Esta bomba, meu caro, está programada para explodir de duas maneiras. E uma delas é caso meu ritmo cardíaco cesse.

Ele viu as mãos do homem tremendo enquanto ele mantinha a arma à sua frente. Praguejando mentalmente, depois de instantes, ele abaixou a pistola, bufando.

– Melhor assim. – declarou Braxton. Fechou o casaco e aproximou-se do sujeito. – Arranje-me um avião para os Estados Unidos e tem a minha palavra de que ninguém sairá morto.

Com o semblante fechado em profunda raiva, segurando-se para não avançar no mais novo, o indivíduo pôs-se a falar:

– O máximo que posso lhe arranjar é um avião com destino próximo à fronteira. Deve estar a par de como as coisas funcionam por aqui.

James Braxton tinha ciência da situação. Estava lidando com traficantes. As encomendas destinadas à América eram entregues na fronteira entre os Estados Unidos e o México. Ainda precisaria chegar à capital. Todavia, o que o sujeito lhe oferecera era melhor do que continuar em Abingdon, onde nada mais lhe interessava.

– De pleno acordo. – assentiu James.

– Aguardarei o pagamento quando aterrissar.

– Está entendendo errado, senhor. – interrompeu-o. – Ou leva-nos ao destino combinado, ou encerrarei suas vidas medíocres aqui e agora. O meu pagamento será preservar-lhes a vida. E é a única opção que lhes ofereço.

Enraivecido, o homem detestou ter de tomar a decisão seguinte, certo de que não valeria a pena contra-atacar. Estavam em desvantagem. Respirando fundo, deixando escapar o seu terrível mau-hálito, ele encarou Braxton, anunciando:

– Vamos. Nós os levaremos até a pista de partida. – passou por ele, e o mesmo fizeram seus quatro seguidores.

Virando-se para Willow, James sorriu-lhe, dizendo:

– Ficaremos bem. Eles nos levarão de volta hoje mesmo.

A garota não respondeu, ainda surpresa por vê-lo agindo de tal forma. Braxton tomou-lhe uma das mãos e seguiram ambos atrás dos homens.

Minutos mais tarde, dentro de um veículo conduzido pelo líder do grupo, Willow Hope – sentada no banco de trás ao lado de James – permitiu-se perguntá-lo:

– Como conseguiu aquilo?

James Braxton encarou-a, sorrindo conciliadoramente.

– Meu pai possuía um arsenal nos fundos de nossa casa. Todos os tipos de arma que se pode imaginar. Era assim que treinava-me. Um soldado conhece suas armas.

Willow encerrou as futuras possíveis perguntas, julgando que James conseguira a bomba do arsenal que o pai mantinha na casa, na noite em que ele saíra sem avisar, segura, porém, de que ele fora a casa para ver a esposa de perto enquanto a mesma dormia.

Estava correta.

O desconhecido os levara para uma área ainda mais afastada. Adiante, podiam ver aviões sendo preenchidos por pacotes grandes e pequenos. Desceram do veículo, e o sujeito – acompanhado de seus homens – levou-os até os fundos do galpão. Um dos homens trazia consigo uma mala prateada feita de ferro. Estendeu-a para Braxton, e o chefe dos demais explicou-lhe:

– Carregue cada seringa com os fracos e injete em você e na menina. – assistiu James abrir a maleta, deparando-se com duas seringas e um par de pequenos frascos contendo um líquido incolor.

– O que é isto? – Braxton quis saber.

– Uma droga experimental que vai fazê-los respirar enquanto estiverem dentro de uma caixa de chumbo que colocaremos em um dos aviões rumo ao seu destino.

– O quê? – James parecia mais do que perplexo.

– As injeções vão diminuir o ritmo cardíaco de vocês, reduzindo a necessidade de oxigênio.

Pensativo, porém ágil, James não respondeu. Tomou posse de uma das seringas e carregou-a com o líquido contido em um dos frascos. Olhou para a pequena profetisa, ordenando:

– Levante a manga.

A menina fez que não com a cabeça, os olhos arregalados. Estava completamente assustada.

– Não sentirá nada, eu lhe prometo. Não pode ficar sem ar dentro da caixa. Vai dar certo. Confie em mim.

Trêmula e muito pálida, Willow puxou uma das mangas da blusa, revelando o braço.

James colocou-se agachado, ficando da mesma altura que ela. Aproximou a seringa do pequeno braço, injetando-lhe o líquido. A garotinha fechou os olhos enquanto a substância adentrava seu organismo. Abriu-os novamente, quando ele terminou, e puxou a manga.

Logo em seguida, Braxton repetiu o ato, carregando a outra seringa e injetando a droga em si mesmo.

– Vocês têm noventa e dois por cento de chances de sobreviver. Agora, entrem naquele caixote. – o homem corpulento apontou para uma caixa de chumbo próxima a eles. James Braxton colocou-se em pé, caminhando com Willow até o caixote. Fez com que a menina entrasse primeiro.

Ele virou-se uma última vez para o traficante. Em um movimento rápido demais para os olhos de seu adversário, Braxton retirou algo do bolso de seu casaco, pregando-o nas costas de uma das mãos do homem. Tratava-se de algo que parecia ser um chip, no qual havia uma pequena luz vermelha que seguia piscado sem cessar.

O sujeito fitou-o, incrédulo.

– Que diabo é isto?

– Apenas um lembrete. – afirmou James. – Caso o avião não chegue em segurança, isto lhe mandará imediatamente aos ares, transformando seu corpo em minúsculas partículas. Não poderá livrar-se disto até que o avião aterrisse, e, claro, que minha frequência cardíaca não pare. É só um aviso. Não tente bancar o esperto.

O homem negou-se a respondê-lo, admirado pela atitude intimidadora de Braxton. Assentiu com a cabeça e viu-o entrar no caixote de chumbo logo depois da menina. Fechou a porta por fora e a caixa foi levada para dentro de um dos aviões.

Assim que o interior da caixa tornara-se completamente escuro, Willow sentiu-se desesperada.

– Eu quero sair daqui!

– Willow, por favor. Ouça-me. Preciso que se acalme. Tudo ficará bem. – James puxou um isqueiro do bolso, acendendo-o, trazendo luz ao ambiente apertado e sufocante. – Ficaremos bem.

– E se… E se isso não funcionar? – perguntou-lhe com os olhos marejados que reluziam a luz da pequena chama vinda do isqueiro.

James hesitou antes de responder. Ele mesmo não sabia se funcionaria, mas esperava que sim. Pela primeira vez em sua vida, tinha fé, depositando sua sorte nas mãos de uma força que acreditava ser superior a tudo e todos, parecendo aceitar seu novo destino.

– Vai funcionar. – ele disse. Mas Willow caíra no sono, sob os efeitos do que lhe havia sido injetado. – Não vou decepcionar você, irmãzinha.

Dizendo isto, também deixou-se cair no sono com seus pensamentos fixos na dúvida sobre como e onde encontrava-se Alena, e em como detestava-se por não tê-la privado do destino que o pai lhe havia imposto.

–—

Já em Washington, Ellie decidira não perder mais nenhum segundo sequer. Não conseguira absolutamente nada com sua viagem à Abingdon. Fora direto ao galpão da organização, pedindo para ver Vincent Hurst.

Seu superior a recebera muito empolgado, feliz em vê-la viva, em estado normal. Foram os dois para a sala dele, e Ellie mal esperou que ele se acomodasse na cadeira.

– Não há nada em Abingdon que possa me levar ao culpado pelas tragédias ocorridas em nosso meio.

– Eu já imaginava… – suspirou Vincent. – Algo me diz que o maldito traidor encontra-se aqui, muito próximo. É quase como se… Eu pudesse senti-lo, zombando de nós.

– Tem alguma suspeita?

Vincent finalmente sentou-se por detrás da mesa. Ellie manteve-se em pé, fitando-o com seriedade.

– Não consigo pensar que tipo de desgraçado teria a audácia de virar-se contra seus irmãos da Fraternidade.

Eleonora deixou sua respiração escapar pesadamente, olhando para outra direção. Hurst não deixou aquele gesto passar despercebido por seus olhos.

– Algo mais a incomoda?

Ela voltou a encarar o summus de sua divisão, a figura mais próxima de um pai que possuía desde a morte de seu próprio. Confidenciar-lhe seus pensamentos passara a ser um hábito desde que descobrira por si mesma que Vincent Hurst era o único que realmente poderia ajudá-la em qualquer situação.

Colocando-se diante da mesa de madeira, colocando as mãos sobre ela, ainda de pé, Ellie disse-lhe em tom baixo:

– Eu o tenho visto, Vincent.

– Do que está falando?

– James. – ela disse. – Houve uma noite em que… Parecia estar ali, muito próximo.

Houve uma mudança na expressão de Vincent. Ele tentou compreender o que a garota lhe dizia. Com a voz branda, ele afirmou:

– Bem, Ellie… Esta é uma fraternidade de assassinos. James era um matador. E digo-lhe com fé, seus atos não eram muito misericordiosos. Talvez seu espírito ainda não tenha encontrado a paz.

Talvez nunca encontre. Pensou ela com uma ponta de angústia.

Afundada nestes pensamentos, ela fora obrigada a subitamente regressar à superfície da realidade ao ouvir seu nome sendo proferido através de gritos à entrada do prédio.

– Eleonora Donovan! – dizia a voz. – Preciso vê-la imediatamente! Ouçam-me, é importante!

Imediatamente, Hurst seguiu para fora de sua sala, correndo na direção do galpão principal. Ellie o seguira, atônita.

Pararam diante de uma figura desconhecida, a qual estava aprisionada pelos braços seguros um de cada lado por Joshua Wilder e Dominic Wilder.

Vincent Hurst colocou-se perante o sujeito.

– Thomas Montgomery. – falou o líder da Sétima Divisão. – Mas o que faz aqui?

– A garota… Preciso vê-la, falar com ela… – disse o velho homem, ofegante, esforçando-se para escapar das mãos que seguravam-lhe os braços.

– Por quê? O que diabos haveria de querer com ela?

– Em nome do Inferno, Vincent! – exclamou. – É de grande importância que deixe-me falar com ela. Tudo o que peço são alguns minutos.

Hurst abanou a cabeça.

– Não farei coisa alguma até que explique-me o que deseja.

– Seu maldito filho da…

– Basta! – Ellie colocou-se entre eles, encarando o – até então – desconhecido. Em seguida, lançou um olhar rude para os que aprisionavam o indivíduo. – Soltem-no.

Ambos obedeceram, e Thomas Montgomery caiu ao chão diante da jovem. Levantou os olhos para ela, estranhamente emocionado, admirando-a com adoração em seus olhos cansados.

– Futura governante de todos nós, agradeço humildemente sua misericórdia infinita.

Incomodada pelo tom de voz do homem, Ellie estendeu-lhe uma das mãos, ajudando-o a se recompor. Olhou-o nos olhos.

– Apresente-se, senhor.

– Sou Thomas Montgomery. – ele alegou. – Ex-membro da Quarta Divisão desta fraternidade.

– Por que não está mais entre os seus?

– Abandonei-os.

– E por qual motivo?

– A Fraternidade está se dilacerando, separando-se como ocorrera outrora, há mais de cinquenta anos. Planejam eliminá-la, pois acreditam que seja a causa desta guerra entre as sete divisões. – explicou-lhe. – Embora tenha servido àquela divisão há mais de vinte anos, sou de opinião contrária. Sei que possui um bom coração e que desempenhará com glória e justiça seu papel no Novo Mundo.

O interesse pelo que dizia o homem invadiu Ellie de forma imediata.

– Disse que queria ver-me. O que deseja?

Não houve hesitação na voz do homem quando respondeu sua pergunta:

– Servi-la até o último dia que me restar de vida.

Surpresa, Ellie olhou para seus companheiros, esperando que esboçassem reações como a dela. Mas todos mantiveram-se calados, sem emitir qualquer movimento. Seus olhos tornaram a cair sobre o velho.

A voz de Vincent Hurst irrompeu no ar como um súbito trovão:

– Não poderemos aceitá-lo em nosso meio. Poderia estar blefando, poderia ser um espião. Não queremos correr riscos. Lamento.

Sem dar-se ao trabalho de virar-se para seu superior, Eleonora decretou:

– Pois é com imenso prazer que o recebo em minha divisão, Sr. Montgomery. Vincent pode reger as leis nesta organização. Mas eu sou aquela que regerá leis sobre todo o mundo muito em breve. – não precisou encarar Hurst para saber que ele estava perplexo, tal como os demais ali presentes. Viu Thomas Montgomery olhar-lhe com emoção nos olhos. – Seja muito bem-vindo entre nós, senhor.

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